Como o Espiritismo vê a adoção, consta isso do planejamento reencarnatório?


O planejamento para a formação de uma família, dentre outras coisas, é algo que se desenvolve no plano espiritual, nada ocorrendo por acaso ou sem um fim útil para os envolvidos, de modo que assim como os filhos biológicos são companheiros nossos de vidas transatas, os filhos adotivos também.


A Doutrina Espírita oferece um melhor entendimento no tocante ao tema adoção, demonstrando que toda dificuldade, principalmente aquela não decorrente de nossas atitudes na vida presente, resultam de ações realizadas em vidas passadas. Assim, há grande probabilidade de a criança em estado de abandono ser um Espírito vivenciando uma situação de resgate, de prova, bem como a família que a recebe, especialmente aquelas que não podem ter filhos naturais. O amor e a misericórdia de Deus são infinitos, dando uma nova oportunidade para seus filhos recomeçarem, através da reencarnação, sendo a adoção uma ocasião para que os envolvidos aprendam e se quitem com a Lei de Deus, cumprindo a Lei de causa e efeito.


Sem dúvida, quando se adota uma criança, estamos acolhendo em nossa família um coração ligado a nós de vidas anteriores e que, agora, tem a chance de retornar ao nosso convívio para um crescimento mútuo. Os pais precisarão de maior desprendimento, aceitação e amor, para ver naquele Espírito um ser merecedor do mesmo carinho e atenção dos filhos biológicos, principalmente quando, após a adoção, a mulher engravida. Tal situação demonstra não ter vindo o filho adotivo por acaso.


É importante destacar não encarnar a mãe biológica com a tarefa de abandonar um filho, pois não há planejamento reencarnatório para o mal e para o erro, o fato decorre do uso equivocado do livre-arbítrio. Os pais arcarão com a responsabilidade desse abandono, pois quem abandona compromete-se perante as leis de Deus, na medida em que os laços da maternidade fortalecem profundamente os sentimentos da mulher e os laços de família. Desta feita, certo Espírito, precisando vivenciar uma situação de adoção, não precisaria ser abandonado pelos pais, pois Deus, em sua sabedoria e onipotência, tem inúmeros outros recursos para a realização do fato, sem que os pais precisassem adquirir débitos perante a Justiça Divina. Entretanto, considerando nossas escolhas, Deus aproveita a situação ocasionada por nós mesmos, para dar cumprimento à Sua Lei.


Observa-se, assim, ser a adoção também umas das propostas coerentes e viáveis quando da formulação do planejamento reencarnatório. Recordemos o intenso trabalho realizado pela Espiritualidade amiga para que os necessários reencontros ocorram na Terra, podendo sim a adoção ser mais uma destas possibilidades. Contudo, não se está a afirmar que toda e qualquer situação de adoção foi previamente planejada e compõe o plano reencarnatório daquele Espírito, havendo também as decorrentes de uma reprogramação reencarnatória, como uma medida alternativa adotada pela Espiritualidade diante de certa modificação ao planejamento inicial, normalmente ocasionada pelo uso indevido do livre-arbítrio. Exemplificamos.


Um Espírito reencarnante pode não ter vindo com a expiação ou a prova do abandono, mas por motivos alheios a sua vontade seus pais biológicos resolvem não assumir a responsabilidade pela criança. Neste caso, seguramente os amigos espirituais adotarão providências para que este Espírito receba a ajuda de outra família que o receba com amor, encaminhando-o para uma existência digna e baseada em princípios éticos, de modo que ninguém passe por aquilo que não precisa, pois Deus é infinitamente justo e bom e não permitiria o sofrimento em vão de seus filhos amados.


Em O Evangelho Segundo o Espiritismo[1], no item referente aos órfãos, exorta o ser humano a amá-los, lembrando o quão triste é ser abandonado, especialmente na fase infantil. Afirma permitir Deus a existência de órgãos para que o homem possa amparar estas crianças, servindo-lhes de pai e, assim, praticando e compreendendo a Sua lei de justiça, de amor e de caridade. Na oportunidade, recorda novamente o fato de que, muitas vezes, a criança socorrida nos foi cara noutra encarnação, caso em que, se nos fosse possível lembrar, veríamos não estar praticando a caridade, mas, em verdade, cumprindo um dever.


O tema traz ainda outras reflexões. Será viável falar ao filho ser ele adotivo ou é preferível esconder tal verdade? Acreditamos, salvo melhor juízo, ser melhor dizer a verdade, mesmo na fase infantil. Sabemos que alguns pais omitem o fato por muito amarem a criança, como a um filho biológico, não fazendo diferença ser ele decorrente de adoção; em outras situações, evitam falar por receio de perderem o amor e a afeição da criança. Refletindo acerca do tema, entendemos que se a criança recebe no lar o amor e aprende nele os valores elevados da alma, ao saber da verdade, sentir-se-á ainda mais amado, pois compreenderá decorrer a afetividade não de um laço consanguíneo, mas de um sentimento real, sincero e espiritual, muito mais valoroso e que se estenderá por toda a eternidade.


Em Sexo e Destino[2], do autor espiritual André Luiz, consta a informação de que “filhos adotivos, quando crescem ignorando a verdade, costumam trazer enormes complicações, principalmente quando ouvem esclarecimentos de outras pessoas”, sendo mais indicado falar a verdade deste cedo, com base num diálogo franco e amoroso, à luz da orientação cristã. Tenhamos em mente que a família, quando baseada em diálogo fraterno e sincero, tem os laços afetivos fortalecidos, de modo que a adoção torna-se algo secundário.


Fato também a merecer considerações refere-se à adoção realizada por casais homossexuais, surgindo discussões várias acerca do tema. Raul Teixeira[3], de maneira brilhante, ensina:


[...] o amor não tem sexo. O amor é o amor. Como é que poderemos imaginar que será melhor para uma criança ser criada na rua, ao relento, submetida a todo o tipo de execração a ser criada, nutrida, abençoada por um lar de um casal homossexual? Muita gente assevera que a criança corre riscos. Mas como, se estamos acompanhando as crianças correndo riscos nas casas dos seus pais heterossexuais? Outros afirmam que a criança criada com homossexuais poderá adotar a mesma postura, a mesma orientação sexual, o que também é falso. A massa de homossexuais do mundo advém de lares heterossexuais. Então teríamos que concluir que são os heterossexuais que formam homossexuais. Logo, não temos que entrar nessa discussão, que é apenas tola e preconceituosa. Aquele que tenha amor para dar que o dê e, dessa maneira, estaremos colaborando com Deus na obra da Criação [grifo nosso].


Portanto, precisamos amar os nossos filhos sem pensar se vieram para nossa família material pelos laços da consanguinidade ou não, pois somos todos, acima de tudo, filhos de Deus e irmãos uns dos outros. A maternidade ou paternidade adotiva será sempre um exercício de amor.

[1] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 131 ed. Brasília: FEB, 2013. p. 193.


[2] XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Sexo e Destino. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, [2013?]. p. 62.


[3] Raul Teixeira. Vida e Valores (Filhos adotivos). Disponível em: <https://bit.ly/2OI0t81>. Acesso em: 24 set. 2018.

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