Por que ainda existe preconceito, por diversas religiões, contra o Espiritismo?

Porque existe desconhecimento acerca do que seja o Espiritismo. Conquanto estejamos em pleno século XXI, com inúmeros livros a nossa disposição, internet, CDs, DVDs, cinema, televisão etc., quando se fala em Espiritismo muitos ainda sentem medo e o criticam e, apesar da maioria das religiões monoteístas da atualidade cultuarem a mesma divindade, muitos religiosos não conseguem aceitar, ou tão somente conviver pacificamente, com pessoas que não seguem as mesmas crenças e dogmas.


José Herculano Pires, abordando o preconceito contra o Espiritismo, no Livro O Homem Novo[1], destaca que o preconceito anti-espírita parece o ocorrido contra o Cristianismo, no mundo antigo, no sentido de que as pessoas que temem e não conhecem o Espiritismo dão-lhe aplicações indevidas, perdendo-se num emaranhado de lendas e de suposições acerca das sessões espíritas. Normalmente os espíritas são acusados de endemoniados, necromantes, feiticeiros, entre outros, da mesma forma que gregos e romanos faziam com os cristãos primitivos.


Lembra não serem essas deturpações do Espiritismo apenas orais, entre pessoas simples, mas também em publicações eruditas, revistas, jornais, livros de ensaios e estudos, com signatários cultos. Traz o autor, ainda, a opinião de Pitágoras, ao afirmar que a Terra é a morada da opinião. E, sendo opinião uma coisa frívola, incerta e irresponsável, não é de admirar que tantas pessoas opinem acerca do que não conhecem, sendo esse um hábito existente mesmo entre os mais intelectualizados.




Quando se trata, contudo, de uma doutrina espiritual, defendida por tantos homens cultos, de projeção no mundo das ciências e do pensamento, no mundo inteiro, as pessoas, de cultura ou mesmo de mediana cultura, deveriam ter mais cuidado ao se posicionarem a respeito, pois se o direito de opinar é livre, também o é o de julgar o senso de responsabilidade de quem opina. Segundo José Herculano Pires, omaior motivo de se temer o Espiritismo é a covardia humana, que faz os homens estremecerem de medo diante do perigo de alterarem suas opiniões diante do mundo e da vida, quando o Espiritismo muda a concepção estreita de uma vida falsa, para uma ampla concepção da vida espiritual, profunda e verdadeira.


É da lógica natural do crítico que este, ao falar de algo, conheça-o a fundo, não superficialmente, situação na qual sua opinião não teria valor. Kardec ressalta a necessidade de se estudar profundamente o Espiritismo para que se possa emitir qualquer crítica de valor. No livro O que é o Espiritismo[2], o Codificador, em diálogo com um crítico à Doutrina Espírita, que desejava escrever um livro sobre o que considerava um erro, afirma que para se tratar sobre uma questão ex professo, equivale a dizer que a mesma foi estudada sob todas as suas faces, que tudo foi visto e lido sobre a matéria, com análises e comparações de diversas opiniões, é dizer, que nada foi desprezado para se chegar à verdade, pois somente aquele que faz tudo isso pode dizer que fala com conhecimento de causa.



O Espiritismo respeita todas as religiões e defende a liberdade de consciência, consequência natural da liberdade de pensar, patrimônio do homem. Entende que toda crença que incentive e eduque o ser humano a fazer o bem e não o mal é respeitável. A religião, entretanto, não pode ser utilizada como mecanismo de perseguição ou de imposição, pois a crença quando imposta não desenvolve os verdadeiros valores do homem, a fé sincera e o amor.


Lembremos-nos das sábias e fraternas palavras do saudoso Chico Xavier [3] que, ao participar do Programa Pinga Fogo, em 1971, da TV Tupi, abordandodo sobre as religiões e os milagres, destaca que todas as religões que tornam o homem bom são boas e são instrumentos de ligação do homem com Deus. Disse ele que todos os fenômenos de bondade divina, como o trazido pela igreja católica, considerada por ele como a mãe da nossa civilização, são legítimos e, portanto, credores da nossa veneração, destacando não estarmos separados, os evangélicos-reformistas e os espíritas cristãos por diferenças fundamentais.



Informa que os Espíritos ensinam que, conquanto estejamos todos em faixas diferentes de interpretação, somos uma família só diante de nosso senhor Jesus Cristo, razão pela qual reverencia o Papa em sua santidade e os eminentes cardeais no Brasil, protetores da nossa fé. Reforça que o homem não pode esquecer este fato e que amava a religião tradicional em tudo o que tem de belo e de divino, mesmo que se seguisse na faixa do Espiritismo cristão, dentro das conceituações de Allan Kardec, em virtude de a mediunidade tê-lo chamado para este campo de trabalho, também profundamente cristão.


Chico assevera que a religião é sempre boa quando fundada nos princípios do bem, pois torna os homens bons e é um processo de ligação com as forças divinas que emanam de Deus. Esclarece que todas as religiões que objetivam o burilamento da criatura humana trazem paz e amor autênticos, sem nenhuma ofensa ou desconsideração para ninguém, sendo um caminho santo que os espíritas cristãos respeitam e devem respeitar sempre mais.




É exatamente este sentimento de fraternidade e irmandade entre as religiões que deve existir, todos nós devemos procurar viver em paz, trabalhando pelo crescimento da humanidade, fundamentada no amor e na vivência do Evangelho de Jesus.


O Espiritismo relaciona-se com as demais religiões de modo tranquilo, sereno e com muito respeito, pois entende que assim como o Espiritismo pode levar, a depender do seu uso, as pessoas ao “céu” ou ao “inferno”, é dizer, a terem nos planos físico e espiritual uma vida feliz ou de sofrimento e dor, as demais religiões também podem. Tudo dependerá de como elas irão pensar e agir após estudar e praticar essas religiões.


Espiritismo é uma doutrina sempre aberta à convivência e ao diálogo com as outras crenças religiosas, baseando-se numa compreensão ampliada dos ensinamentos morais de Jesus Cristo e nas Leis Naturais esclarecidas por Kardec. O essencial não é seguir uma religião ou outra, mas entendendo as Leis Naturais de Deus, agir de forma ética e moral, fundamentando-se nos princípios de igualdade, fraternidade, justiça e amor ao próximo, conforme tão bem apresentados e vivenciados por Jesus Cristo.


Logo, não é o fato de ser espírita, a frequência em templos, a multiplicidade das palavres, a observância de rituais e de dogmas que eleva os homens, mas a sua reforma íntima através do autoconhecimento e da busca pela autoiluminação, é a prática da caridade através do amor em ação. Desta feita, as religiões e demais filosofias devem, como já dito alhures por Chico Xavier, transformar o homem para melhor, eis aí o grande desafio de todas as crenças.



Não se intenciona, por estas observações, desestimular os rituais nos templos. Na verdade, tudo faz parte do caminho de elevação espiritual e se a pessoa realmente pensa e deseja o bem, se está vibrando positivamente por si e pelo próximo e se procura ser um homem de bem, seguramente será “salvo”, independentemente da religião que siga.

[1]PIRES, José Herculano. O homem novo. 3 ed. São Paulo: Espírita Correio Fraterno do ABC, 1989. p. 14.

[2]KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. 56 ed. Brasília: FEB, 2013. p. 44.

[3] YOUTUBE. Chico Xavier fala sobre as religiões e os milagres e suas visões. Disponível em: <https://bit.ly/2Nn1XUE>. Acesso em 11 jun.2018.

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