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Primavera de Marta - Mensagem 16.03.2022



Para muitas mentes argutas e inquietas, o estado de guerra não corresponde à realidade da criatura humana, em particular, nesse momento de alta tecnologia e expansão das fronteiras onde vivemos. Uma jornada épica pela história nos daria informes seguros das imensas conquistas no campo filosófico, religioso e cultural, que não podem ser atiradas ao lixo como se nada representassem para a sociedade contemporânea. Museus e pinacotecas exibem os frutos da curiosidade e da engenhosidade do ser humano no seu multissecular périplo pelas diferentes civilizações. Do domínio do fogo ao motor de combustão, sob impulso dos combustíveis fósseis, da coleta primitiva de grãos e raízes para alimentar a tribo até os campos arados da atualidade, sob controle seguro de GPS e satélites, atestam o salto quântico que fizemos, no árduo esforço de abandonar o primitivismo dos conflitos de paus e pedras, adentrando-se hoje na guerra altamente tecnológica, virtual, com drones pilotados a milhares de quilômetros, conduzidos por mãos cirúrgicas para alvos específicos.


Onde se perdeu a filosofia da paz?


Em que recanto íntimo deixamos esquecida a cultura da não violência?


Como nos enxergamos após combater o outro, destruindo-lhe a vida ou sua cidade, e em seguida buscar um templo para invocar o poder Divino em nosso favor?


Como conciliar altares e baionetas? Lançar granadas de estilhaço e meses depois distribuir cobertores aos que vivem nas ruas?


Consultar manuais e estratégias de guerra tática num instante e ler o Evangelho logo depois?


Nesse paradoxo vive o homem moderno, onde nem sempre o discurso está afinado com a conduta, e o saber permanece sabotado pela ganância e astúcia de eliminar o outro, que tem como inimigo.


Concorda-se que os períodos pós-guerra ensejaram um grande desenvolvimento industrial e científico da sociedade, mas nada conseguiu estancar o pranto das viúvas e dos órfãos, alimentar de esperança os mutilados e esvaziar dos hospitais os milhares de amputados por minas terrestres e artefatos de destruição.


Num momento, eis uma cidade pulsante e febril nas suas principais artérias, para horas depois não passar de cemitério para muitos e terra arrasada para os poucos sobreviventes, esmagados pela desesperança e pelo medo.


Onde o ponto de ônibus, agora é estacionamento de um tanque de guerra. A escola, reduzida por mísseis a escombros.


A creche, riscada do mapa. O jardim, outrora disputado por famílias, animais domésticos e pessoas alegres, agora não passa de um amontoado de ruínas, de árvores desnudas e tição por toda parte.


Como aceitar que a paz possa ser imposta e não construída com diálogo e bom senso?


Em pleno século das luzes e da mecatrônica, da robótica e nanotecnologia, não raro abdicamos do estado de humanidade para rentear com o bruto, nos assemelhando em gestos e atitudes ao ser primitivo e instintivo de cem mil anos atrás.

Aquele disputava território para caça, pesca e coleta. Hoje, movimentamos tropas e infantarias, esquadras náuticas e submarinos nucleares para intimidação e exibição da musculatura militar de cada um. E nesse campeonato de insensatez e loucura, nesse teatro de horrores e cultura egóica, o fuzil subjuga a flor, a bomba cala o canto e a artilharia sufoca a sinfonia.


Não obstante o cenário de inquietação e dor desses dias que estamos todos atravessando, missionários do amor e da cultura, pacifistas do ontem próximo ou longínquo, religiosos diplomatas, cientistas notáveis, mestres da arte e da educação deixam suas regiões felizes no infinito e mergulham na neblina carnal para novo desiderato desafiador: restaurar o pensamento de Jesus entre os homens, consolidar os marcos do Reino de Deus nos corações sensíveis e descortinar o véu da imortalidade para todas as criaturas.


A ciência marcha para ser religiosa.


A religião terá que ser científica.


A filosofia se despirá de ufanias ou propostas materialistas, ofertando diretrizes éticas aos equivocados e perdidos.


A educação forjará homens e mulheres de bem e não simplesmente cultos e doutos.

O maior diploma estará nas atitudes e não pendurado na parede.


A escola não continuará insistindo apenas na produção do conhecimento. Sim, é preciso saber, mas temos urgência de ser.


E essas mesmas mentes argutas e inquietas, apressadas e ansiosas haverão de perguntar quando esse tempo promissor chegará.


Não temos uma resposta pronta em cima do calendário ou da folhinha pendurada na parede. Esse tempo depende do cultivo do amor, do manejo lúcido da paz e de uma educação moral, social e espiritual do ser humano. E essas ferramentas só dão respostas a longo prazo.


Até lá, teremos muito trabalho, notícias de guerra e tréguas ligeiras.


Se cada um aproveitar dez minutos por dia para meditar sobre a paz e no restante do tempo investir em ações que eduquem seu mundo íntimo, em tempo breve poderemos ver florescer no solo do planeta azul a árvore acolhedora da esperança e da alegria, traduzindo a vida em abundância que Ele nos assegurou ter para nos ofertar um dia.


Marta

Salvador, 16.03.2022

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