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Primavera de Marta - Mensagem do dia 01.06.2022



Permanece profundamente comovente a narrativa de Mateus quando descreve a primeira multiplicação de pães e peixes para a multidão esfaimada. Talvez aos olhos de exegetas e teólogos brilhe apenas o conteúdo histórico, milagroso, sem uma maior dilatação no sentido oculto da ocorrência extraordinária.


Buscando o isolamento e o silêncio da natureza para comungar com Deus, Jesus foi seguido por grande multidão, a que o evangelista situa em torno de 5 mil pessoas. Eram e são os famélicos de todos os tempos. Estão em todos os continentes e em qualquer esquina.


Contam-se hoje por mais de um bilhão de seres humanos, claudicando entre a canícula e a fome devoradora. Lutam, desesperados, pelo naco de pão e pela água fria, que os arranque da agonia do estômago em tormento constante. Seguem qualquer um que lhes prometa a cesta básica ou o farnel modesto. Se acercam do carro da sopa como mariposas ávidas em torno de uma luz chamativa, abrindo um sorriso de reconforto quando estão com o caldo nutritivo na noite escura e gelada.


Mas ao lado desses famintos do pão de trigo, não será difícil localizar as multidões de sedentos por outro tipo de alimento.


Os que perderam o apetite pela vida.


Os reféns da agonia demorada.


Os algemados aos grilhões da depressão profunda.


Os assaltados pela ansiedade mórbida.


Aqueles que alegam não terem mais um sentido existencial, para quem a vida se tornou uma cruz pesada demais para carregar.


Todos eles e muitos outros ainda se constituem em formadores de enormes cordões de agoniados que o mundo agitado ignora. Enquanto milhões se agitam nas fainas na sobrevivência puramente material, outros buscam um alimento que não se encontra disponível nas prateleiras dos grandes empórios ou nas custosas vitrines das delicatessens de grife.


Anseiam eles, homens e mulheres, crianças e idosos, novos e antigos, por um gesto de solidariedade ou uma conversa de cinco minutos. Sonham com um amigo ou alguém que lhes escute as mágoas acalentadas ao longo da jornada.


Gostariam de compartilhar sonhos, como se fossem comerciantes de venturas que planejaram, mas as circunstâncias não lhes facultaram possibilidades de realização.


Trazem chagas ocultas das câmeras de monitoramento.


Carregam enfermidades que não aparecem no hemograma ou na biópsia.


Conduzem consigo frustrações severas, limitações nos sentimentos e sem notarem, são pedintes e carentes de afeto, esgotados da sensibilidade alheia e enfermos das emoções.


Eles também procuram Jesus.


Alguns já estiveram em suntuosos templos religiosos e somente encontraram a letra que mata. Se viram extorquidos no dízimo ou nas ofertas em escandalosa exigência dos procuradores de Deus.


Deixaram tudo para trás e buscaram no álcool ou nas drogas o anestésico para suas agonias.


Doparam o corpo, mas a consciência se lhes permaneceu ativa e mutilada.


Tentam achar, da maneira de cada um, o Jesus peregrino, aquele que andava de aldeia em aldeia, levando esperança e compaixão para as multidões de desassistidos. Quando muito, O acham quase sempre crucificado e retido numa cruz de opróbrio e insensatez das criaturas humanas.


Vasto é o oceano das necessidades humanas, escassos são os doadores do pão da vida.


Certamente que se não fosse carpinteiro, Jesus optaria no mundo pela profissão de padeiro, erguendo entre os famintos da Terra um forno de esperança e fé, otimismo e alegria, fabricando com o trigo de Deus o pão que nutre a alma e alimenta a confiança.


Se em tua caminhada renteares com essa multidão de desabrigados e famintos, oferta algo de ti mesmo. Estende algum trocado que esteja disponível no bolso ou na carteira, mas não te furtes a doar algumas migalhas de teu sorriso ao triste e desalentado.


Em muitas circunstâncias aparentemente insignificantes da vida, o alto situa em nossa estrada essa ou aquela alma perdida para que nossa caminhada tenha um sentido evolutivo: ninguém progride sem auxiliar. Espírito algum avançará sem compartilhar o que tem e o que sabe.


E em meio a esfarrapados e maltrapilhos, sábios e doutos, siga tu em busca do Mestre.


Na padaria Divina tem sempre vaga para um novo distribuidor do pão da vida feliz.


Marta

Salvador, 01.06.2022

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