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Primavera de Marta - Mensagem do dia 02.08.2022



Em uma sociedade profundamente plural, não será difícil localizar milhões de vidas despossuídas do mínimo necessário a uma existência com dignidade.


Fala-se muito dos sem-tetos. Famílias inteiras que deambulam pelas ruas e campos, sem a aquisição ou posse, mesmo que a título precário, de um pedaço de chão onde possam se abrigar das intempéries típicas das mudanças climáticas. Fizeram das ruas, praças e marquises seu lar, e ali, homiziados na miséria e na carência, vivem, procriam e morrem.


Milhões jazem impossibilitados de acesso aos grandes centros hospitalares, onde pontifica a medicina de excelência. Enfermos, buscam na fitoterapia ou no posto de saúde próximo algum facultativo de plantão que lhes arranque a agonia das dores, diminuindo o mal-estar causado pelas doenças de ocasião. Se encontram absolutamente distantes de possuírem um plano individualizado de saúde, que lhes oferte atendimento especializado, já que os recursos de que dispõem mal chega para a mantença da própria sobrevivência.


Outros, incontáveis, fazem da informalidade meio de obtenção de recursos com que possam trazer o feijão e o arroz para o estômago atormentado pela canícula da insegurança alimentar, o outro nome da fome. Desprovidos de qualificação profissional, se especializaram em fazer "bicos" de qualquer coisa com que possam sobreviver, já que não vivem.


Divorciados dos bancos escolares e dos centros acadêmicos, para eles e elas qualquer discussão filosófica acerca de Kant ou Sartre, Marcuse ou Sócrates passam ao longe, inteiramente focados em estarem vivos a cada dia.


E ligeira observação social poderá nos fornecer diagnóstico de nichos urbanos ou grupos rurais que estão à margem das notáveis conquistas que beneficiam outros privilegiados.


As sociedades sempre se caracterizaram por essa discrepância, onde alguns poucos detinham o poder econômico, observando de longe os que estorcegavam na miséria mais dolorosa. A Revolução Francesa teve, em vários de seus motivos, a profunda cisão de uma sociedade injusta, onde a elite religiosa e a monarquia absolutista dos Bourbons detinha o poder dos meios de produção e da cobrança extorsiva de impostos, lançando nas geenas da pobreza absoluta a maior parte da sociedade francesa, que ficou altamente propensa a aderir ao movimento que eclodiu a 14 de julho de 1789.


A Inconfidência Mineira, quase no mesmo período, teve como impulso, dentre outras causas, o fundo fosso das disparidades sociais que se abatia sobre a sociedade brasileira, mantendo o nativo em agonia na escassez do pão, enquanto uma elite ibérica se locupletava na farra do ouro e das dissipações de toda ordem.


Quando os muros da indiferença são erguidos, segregando milhões de cidadãos e produzindo castas de privilegiados, é previsível aguardar que em algum momento o bloco dos desesperados saia da anestesia e do torpor, fazendo do argumento da força alavancas com que buscam reverter a injusta condição social em que se encontram soterrados, quais mortos-vivos que ainda respiram.


As nobres conquistas sociais da atualidade, historicamente falando, tiveram um alto preço nas revoluções armadas que a própria história guarda como lembrança amarga de suas contradições.


Enquanto o indivíduo não se reconhecer como uma alma em trânsito pelo corpo, tateando a lousa terrestre em busca de sua real identidade, o fastígio do mundo e as posses transitórias exercerão fascínio aterrador, eclipsando a realidade da vida. O ser, equivocado na sua ótica distorcida, julgará ser senhor dos meios econômicos e da riqueza perecível, esmagando por diversos modos a oposição existente ao seu transitório mando. Ignora, ou procura ignorar, que cedo ou tarde, demandará os portais da bancarrota orgânica, onde as vestes físicas cessarão suas funções na anóxia cerebral, expulsando o inquilino do castelo de ossos em ruína extrema, o projetando no país causal onde defrontará, invariavelmente, a própria consciência.


Tudo que teve, ficou.


Tu que se fez segue consigo, como sombra teimosa gerada pelo remorso tardio ou ferinos aguilhões íntimos, fabricados pela consciência de culpa.


Numa cultura que se ufana pela tecnologia de ponta, pelos artefatos de última geração, não se pode olvidar nem ignorar que milhões de seres humanos passam fome diariamente, enquanto nos campos explodem safras recordes. O desperdício de alimentos choca o senso mínimo. A utilização indevida e perdulária dos mananciais aquíferos lança incertezas sobre o futuro, onde a água será tão disputada quanto o petróleo nos dias atuais.


A produção de lixo industrial, doméstico e hospitalar são bombas prestes a explodir, nem sempre merecendo o reaproveitamento devido e sua reciclagem adequada, conquanto notáveis iniciativas nesse sentido.


A sociedade produz suas contradições flagrantes e dentro delas se encarcera.


Acende luzes e opta pela escuridão moral.

Investiga planetas a milhões de quilômetros no espaço e ignora a malta de despossuídos de dignidade, a caminharem como zumbis nas estradas do mundo.


Constrói barcaças colossais para transportes intercontinentais de milhares de container, assistindo em criminosa passividade os milhares de homens e mulheres que se espremem diariamente em metrôs lotados e coletivos entupidos de gente.


Tem alternativas e não as aplica.


O discurso verborrágico tem primazia. A ação dignificadora fica em segundo plano, atendendo a sombrias intenções de poder.


Quanta falta faz o Evangelho de Jesus nas almas!


Mais Sermão da Montanha lido e vivido nos permitiria mudanças morais significativas, onde a cada um tocaria o mínimo necessário para uma existência digna.


As cercas seriam verdes.


Os muros de Berlim seriam derrubados, permitindo o intercâmbio sadio entre os seres humanos, sem barreiras impostas pela empáfia.


O tartufismo seria proscrito da convivência diária.


E a lei de amor se faria regra de ouro, enchendo o prato de de cada um com o pão da vida eterna.


Não custa sonhar.


Marta

Salvador, 02.08.2022

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