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Primavera de Marta - Mensagem do dia 06.05.2022



A renúncia se constitui num dos capítulos mais comovedores da peregrinação humana na Terra. Desafia o ego tirânico e faz exalar do ser o seu lado mais sensível.


Quase todos já puderam experimentar, ao longo da existência, algum momento que exigiu espírito de renúncia.


O genitor que abriu mão de sonhos para garantir a sobrevivência dos filhos. A mãe de leite, que por imposição da época escravagista, secou os seios na oferta do alimento ao filho do senhor de engenho, privando os próprios rebentos da nutrição a que tinham direito.


Os operários que deixavam de estar com as famílias para fazerem horas extras de serviço, reunindo recursos a mais para a compra do pão.


Os que silenciaram o verbo, aceitando as injunções perversas em honra de um ideal maior.


Quantos renunciaram ao desejo de formar uma constelação familiar, vestindo o hábito com que buscaram resgatar vidas dos pântanos morais?


Na clássica e comovente história real de Alcione, retratada com beleza ímpar pelo nobre Espírito Emmanuel, por infinito amor à sua alma gêmea, esta renuncia aos planos felizes da Espiritualidade Maior para volver aos áridos caminhos terrestres, buscando insuflar coragem e apoio ao amado de tantas existências sucessivas. E em arrebatador final, se vê prisioneira numa torre infecta e úmida por dez meses consecutivos, até ser vencida pelas hemoptises destruidoras, não sem antes travar com seu grande amor as derradeiras palavras de despedidas. O personagem Carlos Clenaghan ficaria no mundo para as provações e testemunhos de que necessitava, mas Alcione regressava aos páramos de luz, sob tutela de almas redimidas e amorosas.


As insondáveis renúncias do amor, que deixa de se concretizar no solo triste do mundo para aguardar o reencontro nas paisagens do infinito, acima das inquietações da carne.


Dentre todas as virtudes, a renúncia se destaca pelo caudal de lágrimas que provoca, quando projetos e sonhos terrenos são postergados em favor da sublimação espiritual de determinados seres ou grupo de almas afins. Por mais que o desejo grite por dentro, buscando as compensações passageiras da matéria, o renunciante situa sua fidelidade a Deus como ponto alto de uma felicidade ainda desconhecida no mundo.


Quase nunca essa renúncia é vista. Quando se revela, os protagonistas já se encontram distantes dos cenários onde se deu o holocausto.


Cristãos às feras. Renunciavam ao fastígio de César, pagando com a vida física a afronta a Roma.


Judeus nos campos de extermínio na segunda guerra mundial. Caçados como animais, experimentaram a câmara de gás e os fornos crematórios, mas se mantiveram fiéis a Moisés.


Quantos perderam igualmente a vida nos tenebrosos dias da inquisição espanhola, que igualmente se espalhou por Portugal, exterminando milhares de pessoas?


Em muitas circunstâncias, para alcançar a realização de um ideal divino, o ser precisa abrir mão dos desejos humanos, aparentemente se negando para confirmar o desiderato que o situa entre os próprios irmãos, possuidores de muita dificuldade na compreensão destas renúncias.


Paulo, após visitado por Jesus às portas de Damasco, refez seus ideais de homem e doutor da lei, buscando uma trilha incompreensível para familiares e amigos queridos da Sinagoga de Jerusalém. Após a recuperação da visão, ao toque magnético de Ananias, outra passou a ser sua compreensão da vida.


O sol do Cristo interno o abrasou.


Seus projetos pessoais se tornaram quimeras.


Sua perseguição inclemente ao Cristianismo nascente se tornou acendrado amor pela rútila mensagem do Homem de Nazaré.


O combustível da renúncia passou a sustentar-lhe a existência até o sacrifício derradeiro diante dos esbirros de Tigelinus.


Certamente que alguns dos teus sonhos sofreram profundas alterações. Nem sempre conseguiste realizar desejos acalentados.


Amores desejados ficaram perdidos em tua estrada emocional.


O grande afeto partiu em outra direção, te constrangendo a amarga solidão. E a morte, sem qualquer aviso prévio, te arrancou dos braços quem mais amavas, te rompendo as comportas dos olhos, em inundação de lágrimas salgadas e doridas.


Como são difíceis encontrar nessa hora palavras que possam consolar! Em que livro extrair uma frase que amenize a dor da separação?


Nem sempre escolhida, às vezes a renúncia se impôs em tua existência por desígnios insondáveis.


Quando o chão te pareça faltar aos pés, as veredas te surjam intransitáveis, o oceano te surja revolto, açoitando de maneira impiedosa teu barco existencial, não te fixes na noite que negreja, aparentando invencibilidade.


Recorda D'Ele no supremo martirológio.


Quantas renúncias fez em nosso favor?


E quando a desesperança pareceu tomar conta do colegiado apostólico, Ele renunciou mais uma vez subir ao Pai para estar com os amigos, preparando os dias do porvir, que seria regado e nutrido pelos sacrifícios e renúncias daqueles que O amavam acima de tudo.


Chamado à renúncia, serve no mundo sem ser do mundo, rega teu chão com lágrimas que a maioria não verá e segue confiante em direção à tua plenitude.


N'Ele e com Ele, toda renúncia é condecoração íntima, consolidando nossa união com Jesus para sempre.


Marta

Salvador, 06.05.2022

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