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Primavera de Marta - Mensagem do dia 09.02.2022



Em meio a uma sociedade que se renova de maneira vertiginosa a cada dia, homens e mulheres atravessam os caminhos da vida aturdidos com as mudanças e os contrastes que se apresentam, desafiadores.


Uma medicina que não cessa de surpreender, decifrando enigmas da vida microscópica e estabelecendo novos meios de prevenção e tratamento das enfermidades, e ao mesmo tempo uma fila incalculável de desatendidos e desassistidos, morrendo à míngua de qualquer auxílio.


Imponentes meios de comunicação, possibilitando intercâmbio em tempo real, e no mesmo instante insulados na solidão e no olvido de um simples amigo.


Sistemas financeiros sólidos, resistindo às periódicas crises internacionais do comércio ou do preço do petróleo, e deambulando nas ruas e calçadas milhares de jovens e adultos excluídos do mercado de trabalho, buscando sobreviver em meio ao desemprego.


Templos religiosos repletos de multidões ávidas por um milagre, em adoração a sacerdotes e sacerdotisas da era moderna, regressando para casa sob o cutelo do tédio destruidor.


Bibliotecas vazias, teatros fechados, cinemas em baixa estação e redes sociais em estado de febricidade crescente.


Propagandas de largos sorrisos, revelando uma felicidade utópica, enquanto do outro lado da tela o pranto ignorado esconde mesas vazias e escassez dolorosa.


Lares e apartamentos de luxo cada vez maiores, resguardando vidas vazias em seu interior.


Academias lotadas de sedentos pelo corpo perfeito, olhando pela vidraça os mutilados do trânsito desumano ou marcados por teratologias irreversíveis.


Onde encontrar a fórmula que equacione as desigualdades gritantes, resgatando a fé de milhões e o otimismo que parece periclitar?


Como equalizar de maneira equilibrada a existência de Deus e ao mesmo tempo aceitar tamanho fosso de aviltamento da dignidade humana?


Porque a justiça tarda em favor de tantos injustiçados?


Certamente que qualquer raciocínio em torno da intervenção equivocada da Divindade peca pela estreiteza de bom senso. A Misericórdia Excelsa não pode ser responsabilizada pelos excessos humanos, nem pela deficiência de suas organizações passageiras e mutáveis. Perfectível, o Espírito ainda está em fase de burilamento na oficina terrestre, escoimando pela dor e pelo sofrimento as impurezas do processo de sublimação do eu. Viciado nas sensações e refém de instintos primitivos, ainda pauta sua marcha pelo uso da força, pelo egoísmo feroz e pela indiferença para com as dores alheias. Mesmo quando adota uma filosofia de vida ou se inscreve entre os fiéis de uma crença religiosa, isso nem sempre repercute no miolo, retratando um pão tostado por fora, desprovido de massa comestível por dentro. Jesus, em certa ocasião, enquadrou esse tipo como sepulcros caiados: imaculados por fora, ocultando podridão por dentro.


Somente o manejo lúcido e decidido das potências da alma, como mencionadas por Leon Denis, poderá fazer uma reversão de valores numa sociedade que se ufana da tecnologia conquistada e da velocidade com que se comunica. O investimento no autoconhecimento, a meditação em torno do sentido existencial, a adoção de posturas pró-ativas na sociedade, o exercício da caridade e o desprendimento das coisas materiais poderá ensejar uma nova mentalidade no ser das estrelas, que parece ignorar que continua com os pés fincados no chão do mundo.


Não te faças prisioneiro de teorias brilhantes, que te possam interditar na prática do bem.


O sonho não materializado torna-se pesadelo medonho.


Não aguardes que o mundo te aplauda as ideias brilhantes ou te oferte uma estatueta dourada em tributo de teus discursos de ocasião. Procura agir em favor de alguma causa dignificante ainda hoje. Amanhã pode ser tarde demais.


Ao teu lado seguem os esquecidos, desorientados, maltrapilhos, doentes e desnudos. Atende-os como se fossem a representação de Jesus, que chega por desconhecidos em tua porta, suplicando pão e água.


Não lhes agraves mais as dores. Podes ser, na vida de alguns deles, a diferença que o mundo negou.


Se tens proclamado a parentes e amigos que teus dias estão insossos, destituídos de significado e a depressão parece alma penada, sedenta de alojamento em teu castelo íntimo, sacode o pó de tuas sandálias, abre o mapa de tua atuação no meio aonde estás situado e começa com pelo menos um sorriso ao velhinho, um aceno à criança triste e uma flor ao solitário da praça.


Mas com isso irei revolucionar o mundo, alterando estruturas tão perversas e deficientes?


Amanhã conversaremos sobre isso.


Marta

Salvador, 09.02.2022


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