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Primavera de Marta - Mensagem do dia 09.03.2022



Existem momentos na vida que deixam marcas profundas, indeléveis. Geram mossas morais ou emocionais que acompanham o ser por toda a existência, turvando a visão que se tem da caminhada e impondo ao atingido uma melancolia da qual não se consegue evadir.


Os acontecimentos tristes, as tragédias pessoais ou familiares, a perda de entes queridos se inscreve entre estas marcas que sulcam o tecido da sensibilidade humana.


Nem todos se encontram aptos às surpresas do destino, muitas vezes ocorrendo os infaustos acontecimentos num momento da vida em que tudo parece prenúncio de primavera risonha.


Em plena infância surge o arrebatamento de uma mãe pela morte súbita, impondo dura orfandade e um vazio no ambiente doméstico que nunca se preenche.


Uma tragédia de automóvel, ceifando muitas vidas queridas, sem que o destino nos oferte tempo para digestão da ocorrência dramática.


Uma enfermidade cruel em alguém próximo ou em nosso carro orgânico, fulminando sonhos e expectativas de êxito em algum projeto acalentado.


Um amor cultivado, que de repente se projeta na traição vergonhosa, destroçando dentro do coração aquela esperança de dias felizes e róseos.


Naturalmente, cada um acolherá as farpas da vida de acordo com seu nível de maturidade, as absorvendo de maneira própria, e cada uma delas deixará nos sensíveis campos da emoção resultado peculiar. Comumente se reflete de maneira desgarrada da realidade, se questionando "por que comigo?", quando um outro estado de percepção, mais amadurecido e consciente, nos projetaria no patamar de interrogar "para que?"


Não podendo deter nem prever, via de regra, o que vai suceder a outrem, estamos sempre sujeitos a acontecimentos que contrariam nossos sonhos e tisnam nossa felicidade, impondo luto e lágrimas na estrada por onde deambulamos todos, em busca das grandes realizações evolutivas. Ocorre que quando estacionamos demoradamente na fruição dos dias risonhos e felizes, conforme nosso entendimento, a Divindade tende a nos acordar da letargia do torpor para a realidade da vida, nos impondo mudanças não previstas. Tudo migra para o incessante aperfeiçoamento.


Sucumbe a semente na cova escura para fazer germinar a plântula tenra.


Tomba o corpo para libertar o Espírito, que se emancipa dos grilhões da matéria para retorno à vida causal.


Tragédias são resgates ou provações previstas nas trilhas da programação de cada um, os libertando de dramas ou delitos cultivados no passado recente ou remoto. E por mais que o estojo orgânico seja atingido, a alma, que é imortal, se agiganta e se embeleza no caminho da plenitude.


A deficitária visão terrestre, onde tudo parece estar centrado no cadinho estreito da vivência orgânica passageira, criou uma neblina teimosa, que nos impede de ver além da cripta mortuária, como se essa fosse o fim de tudo, e não o breve intervalo de um estágio para recomeço de outro curso educativo da vida, que pulsa e estua além das cartilagens perecíveis.


Os entes que viajaram mais cedo prosseguem vivendo, lutando e aprendendo. Sentem saudades dos que ficaram e na medida do possível regressam ao ninho doméstico, se reabastecendo de amores e ternura, combustíveis com os quais encorajam os que ainda se retém nos tecidos carnais.


Não sendo a Terra um paraíso nem uma estância de felicidade contínua, onde as dores e os infortúnios surgem de maneira inesperada, cada um possui sua cota de amarguras para temperar os ingredientes da vida. E as compensações são inúmeras, muitas vezes passando desapercebidas.


Os amanheceres cheios de luz. Os poentes incendiados de poesia. Uma página edificante. Uma música arrebatadora. Um convívio demorado com alguém por quem se nutre um afeto rico de beleza e transparência.


Uma comunidade de amigos sinceros. A jóia da família e a bênção incalculável da saúde.


Pode ser que hoje a vida te traga alguma nota destoante. Sejas surpreendido com uma má notícia. Um acontecimento trágico te escureça o dia.


Diante de qualquer ocorrência imprevista, desnorteadora, asserena-te na prece.


Silencia tuas interrogações cáusticas.


Permite que Deus mova as peças do tabuleiro em derredor de teus passos.


Oferta tempo ao tempo, a fim de que o futuro te esclareça o porquê daquelas ocorrências, contrárias aos teus propósitos. E prossegue, otimista e cheio de bom ânimo, na certeza de que após toda tempestade, a natureza cicatriza as próprias feridas, a floresta devastada se refaz e os elementos em fúria colossal se acalmam, proporcionando a chegada da bonança, que são tempos que a Excelsa Consciência te oferta para refletir e meditar, estudar e amadurecer, seguindo sempre para frente, em busca de tua plenitude.


Por mais açoite o vento impiedoso, o ramo verde se dobra, gentil e humilde, deixando passar a ventania desabrida, a fim de voltar a tremular no trigal maduro, prenúncio do pão farto da vida plena.


Recorda Jesus e nenhum tormento íntimo te afligirá.


Marta

Salvador, 09.03.2022

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