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Primavera de Marta - Mensagem do dia 13.04.2022



Bastará ligeira observação em torno de nossos passos para registrarmos quedas espetaculares, comportamentos indignos, maus exemplos, condutas equivocadas. E nos interrogamos, de maneira muda, do por quê de tantas condutas em equívocos acachapante.


Aquele sonhou com a fama e, lutando pelo destaque público, não conseguiu se sustentar no pedestal da vaidade, rolando, ribanceira abaixo para o fosso do crime.


Mais um se acreditou inexpugnável em matéria de ética e foi derrubado pela corrupção, negociando a honra com os mercadores das trevas.


Outro se viu arrastado para o paul sombrio dos conchavos políticos rasteiros, desonrando a frágil plataforma na qual se sustentava em favor de seus eleitores.


Numa sociedade onde as oportunidades são escassas, muitos indivíduos, mais por oportunismo do que por maldade, se deixam tragar por facilidades que julgam imperdíveis, mercadejando a dignidade em troca de um punhado de moedas baratas.


Toda ascensão reclama esforço, luta, sacrifícios. Nenhum alpinista alcança o topo da montanha batendo asas como o condor ou levitando como um yogue. Qualquer subida exige empenho, raladuras, machucados na escalada difícil. Prá descer, basta lançar o corpo no vácuo ou se deixar arrastar pela torrente de lama que hoje toma conta de muitos setores da vida pública e privada.


Carreiras impressionam pela rapidez com que o ser saiu da condição de meteorito apagado para a fulguração estelar, dificilmente se sustentando em terreno movediço. Acossado por exigentes que subiram junto, estes reclamam sem cessar seu quinhão do bolo farto do destaque e do dinheiro, não se contentando com o glacê açucarado nem com o recheio difuso. Ambicionam as cerejas e estão dispostos a tudo para tê-las.


Certamente que nem toda subida ao pódio da fama e da popularidade se fez ou se faz sob o escambo da hipocrisia ou da negociata escusa. Quantas vidas honradas e nobres não gastaram décadas para construir uma biografia isenta de máculas, onde a honestidade forrou as ações praticadas, gerando serenidade e consciência tranquila?


Numa cultura que se encontra fortemente assentada no materialismo, onde possuir ou parecer ter oferta credibilidade e noites de glamour e aplausos, conservar a própria história isenta de manipulações duvidosas está se tornando cada dia mais difícil de se achar.


O maior patrimônio da criatura humana não se constitui dos valores que depositou nas instituições financeiras ou oculta em paraísos fiscais, fugindo do fisco. São seus dotes morais, a postura ética que exerce nos pequenos atos da vida cotidiana, pois que as ações valem mais que as palavras ditas.


Preferível cada noite repousar os ossos cansados num catre de miséria, se refazendo na consciência tranquila e sem remorsos do que deitar numa alcova de luxo, cercado de esbirros assalariados pela desonra, rolando de um lado para o outro do leito, fustigado pela insônia, fruto espúrio da consciência de culpa.


Onde estiver o ser, aí estarão seus valores.


Espírito algum pode fugir das Divinas Leis, que conferem a cada um o resultado de suas próprias obras. E toda ascensão pede asas fortes para os grandes voos e fibra para resistir aos chamados das sereias da ilusão, que arrastam marinheiros desprevenidos para os rochedos destruidores.


No seu colegiado de amigos, Jesus renteava com incultos, analfabetos, pescadores rudes e almas inquietas pelo triunfo ligeiro da nova doutrina. Alguns deles guardavam a convicção de que o Mestre tomaria de armas, aliciaria milicianos e revoltosos contra Roma, destronando César de um dia para o outro. Um deles teve tanta certeza disso que optou livremente por ajustar infeliz acordo com as raposas do Sinédrio de Jerusalém.


O restante da história já se conhece.


E mesmo assim, Jesus jamais negou ao filho de Iscariotes o tributo da amizade e as manifestações de Seu afeto.


Em plena semana evocativa da paixão e crucificação de Jesus, segundo a visão de milhões de católicos, reflexiona em torno de tua capilaridade no mundo.


Que preço vens pagando por te manteres fiel ao bem?


Tens críticos de tua conduta?


Alguns te admoestam pela aparente covardia tua em não anuir com a corrupção fácil?


Percebes a escassez dos verdadeiros amigos e a proliferação de bajuladores e sedentos de poder e posse ligeira.


Para tua mantença na dignidade, terás que pagar um preço. Garantir tua honra vai te custar a separação de afetos queridos.


Para muitos que aguardam de teus lábios um sim, terás que dizer um elegante não.


Resguarda-te na ética.


Silencia onde houver muito barulho.


Ora, em meio ao tumulto generalizado.


E deixa nas estradas do mundo o pó contagioso da fama ilusória, do aplauso fingido e da bajulação orquestrada. Vieste procurar teu reino íntimo, lutar contra tuas paixões e domar tuas inclinações infelizes.


Não achas que já seja muita coisa para uma vida inteira?


Marta

Salvador, 13.04.2022

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