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Primavera de Marta - Mensagem do dia 14.04 2022



Quando nos propomos perscrutar o atual estágio de evolução da sociedade humana, difícil não é constatar o imenso fosso que existe entre o aparente e o real.


Mergulhada numa conduta nitidamente niilista, de imediatismo exacerbado e apego desvairado ao imanente, sobra pouco ou quase nenhum tempo para as graves reflexões sobre o significado da vida e o porque de estarmos aqui.


Agarrando-se de maneira insensata à cápsula carnal, pouco ou quase nada divisa além das fronteiras limites da aduana orgânica na qual deambula do berço ao sepulcro.


Os estímulos são, na sua quase totalidade, para a vivência do materialismo excruciante. Gozos passageiros são disputados até a exaustão. Vícios são nutridos e repassados de pai para filho, como o tabaco, a alcoofilia, as sensações do sexo e da mesa farta, fazendo de homens e mulheres glutões incorrigíveis a buscarem, no desespero posterior, as cirurgias redutoras do aparelho digestivo, reversão drástica para a obesidade mórbida de muitos.


Nunca se teve no cenário da economia mundial tamanha fartura de víveres como nos tempos presentes, sobrando grãos e escasseando solidariedade no instante de sua distribuição equitativa, a fim de diminuir o espectro doloroso da fome, que ora angustia e flagela impiedosamente milhões de criaturas prisioneiras do corpo.


Bolsas de valores são centros nevrálgicos e ansiosos de especulação financeira, onde agitadas mentes, argutas no lucro e no aproveitamento das oportunidades, manipulam vultosas somas, sedentos de lucro e expansão monetária.


Enquanto se faz refém de sua própria cupidez e ganância, as massas se veem aturdidas pelas incógnitas do destino e pelas revoluções culturais e religiosas, que não cessam de eclodir, exigindo adaptações e renovação no pensar.


Quando o cenário das peças dispostas no tabuleiro parece indicar uma era de paz e harmonia, flagelos destruidores se abatem sobre o dorso das grandes urbes, ceifando vidas preciosas, arrancando o ser humano de seu marasmo espiritual e da sua indiferença para com a sua destinação além das células materiais.


Se o berço lhe parece o triunfo da vida, o sepulcro lhe desconforta e a cripta se lhe assoma como a perda de tudo que possui e se consome em manter.


Surgem as neuroses, as crises existenciais, a apatia como moderna expressão de natureza depressiva, as fobias e os transtornos do humor e da afetividade, carreando inquietação e medo para os órfãos da evolução.


Ou mais se afoga na carne, buscando a alienação dos sentidos, na tentativa de negar sua realidade transcendente, ou foge para as naves de templos faustosos, atirando-se, sôfrego, nas turvas águas do fanatismo e da desesperação, a que rotula de religiosidade, quando não passa de fuga de si mesmo.


Imprescindível se faz uma profunda revisão de valores, um mergulho no ser profundo que somos, tentando nos equacionar enquanto vige a oportunidade de aprendizado no liceu da matéria densa.


Urge socorrer os religiosos, perdidos nas teias sufocantes de doutrinas bolorentas e arcaicas, que não logram socorrer nem lenir as dores da saudade diante do esquife mortuário, esclarecendo para onde segue tanta gente.


Emparedado em teorias que elucubrou para as massas aturdidas, ora se vê vítima da própria empáfia, caminhando, desorientado, nas trilhas das grandes incertezas.


Tem, mas não é senhor de si mesmo.


Domina incontáveis segredos da química e da física, da botânica e da medicina, excursionando pelo átomo, a desvelar os seus mistérios e possibilidades, mas não implode o ego tirânico, que o escraviza e o apequena na sua jornada pelas trilhas da evolução.


É impostergável que saia da letra que mata e gravite para o espírito que a vivifica. Ouse abandonar as fantasias que elaborou para dourar a pílula, olvidando seu conteúdo libertador.


Sem o cultivo da solidariedade, rentearemos com o bruto e a mesquinhez e a vulgaridade serão as marcas destes séculos de insensatez e anarquia.


Homens e mulheres, adolescentes e velhos, moços e moças são chamados, pelos novos tempos, a buscarem soluções criativas, onde a parceria não tenha por objetivo único e exclusivo a visão argentária, dominadora e aviltante desses tempos de ambição desmedida.


O cuidado com o outro importa a sobrevivência de todos.


Enquanto a bandeira da paz não for hasteada na intimidade profunda do ser, em atitudes e comportamentos não belicosos, teremos periódicas ondas de calmaria entre os povos, entremeadas com carnificinas que apenas nos rebaixam moralmente.


O ser se fez e se faz, quase que diariamente, lobo do próprio gênero humano. Ignorando o combate às suas torpezas e lepromas morais, gasta energia excessiva no descortino das fragilidades alheias, fazendo eco da própria pequenez no espelho de terceiros.


O Mestre Galileu já era conhecedor profundo dessa nossa tara, nos tendo socorrido há vinte séculos. Ministrou bálsamo aos aflitos, coragem aos desanimados, esperança aos desesperados e advertiu os hipócritas e oportunistas para que não malbaratassem o tempo, sob pena de pelo tempo serem duramente cobrados.


Nenhum ser o usará em vão.


O seu emprego em sentido contrário às expectativas do alto tem alto custo evolutivo.


A visão utilitarista da vida é uma arrematada tolice.


Já não somos crianças espirituais.


Incontáveis milênios apontam, na ampulheta do tempo, que das civilizações gloriosas do pretérito até os dias hodiernos temos avançado, a passos de gigante, nas questões da ciência e das artes, da mecânica e da física, da astronomia e da filosofia.


Urge socorrer a ética, amparar a moral e ressignificar o sentido religioso da vida, sob pena de não passarmos de crianças estouvadas, em eterna algazarra no parque de nossas brincadeiras sem fim, olvidando a sala de aula e suas imprescindíveis lições.


Caminhemos! Não há tempo a perder.


Marta

Salvador, 14.04.2022

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