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Primavera de Marta - Mensagem do dia 16.02.2022



E em colóquio com o velhinho simpático nos foi possível recolher preciosos ensinamentos em torno das fragilidades humanas. De maneira jovial e serena, nos confidenciou que em certa ocasião, um anjo de luz, emissário do Supremo Senhor do Universo, se encontrava observando os homens do alto da montanha mais alta da Terra, quando percebeu a aproximação de um ser vestido em sombras profundas, trazendo no rosto as marcas iniludíveis da maldade e do desprezo.


Ambos os seres se fitaram, quando a entidade luminosa tomou a iniciativa de quebrar o silêncio que pesava nos cumes nevados do Himalaia.


- Irmão, qual tua tarefa entre os seres humanos?


- Eu? Eu espalho a intriga e o vírus da guerra, dissemino o orgulho e estimulo a perversidade. Me comprazo em assistir as dores sem remissão, o infortúnio sem a detestável solidariedade e regozijo quando observo um irmão levantar armas contra outro irmão.


- Semear a luxúria e a insensatez me preenche as horas. E tu, que fazes vestido com essa brilhante túnica?


O alado ser das estrelas não respondeu de imediato, olhando com olhar piedoso o irmão ainda confundido nas sombras da ignorância. Findo ligeiro silêncio entre ambos, voltou a perguntar:

- E o que ganhas, espalhando a miséria e o pessimismo entre as criaturas terrestres? Porque te dedicas com tamanho afinco à semeadura da anarquia e do medo entre os frágeis corações do caminho? Não temes a mão poderosa de Deus?


O servo das trevas lançou desconfiado olhar sobre o luminoso visitante, desferiu gargalhada de desprezo e rematou, entre a frieza e a insensibilidade:

- Que te importa o que faço diariamente?


Estamos em lados opostos e frequentemente duelamos pelas almas ergastuladas no mundo. Nada crio de novo. Apenas estimulo e incentivo o que cada um já tem de pior dentro de si.


Encontro avareza nos hipócritas, fingimento nos pseudo campeões da virtude, sorriso nos traidores, aperto de mãos nos sonsos, caridade interesseira nos ególatras e cultura rala nos que se atribuem o falso saber.


- A humanidade está condenada ao fracasso e o reino do bem é apenas utopia.


E como tem sido fácil minha tarefa! Por onde ando, pairando sobre vilas e cidades, burgos pequenos ou grandes metrópoles, sempre encontro grande número de insensatos e cegos da alma. Meu labor é altamente facilitado pela fragilidade e propensão da raça humana aos instintos e às sensações, a que chamam de amor.


- Porque tu não deixas essa detestável roupagem transparente e vem espalhar comigo o sofrimento e a dor entre estas miseráveis criaturas, esquecidas por Deus?


Nova gargalhada de zombaria profunda fez estremecer as neves eternas.


O solitário anjo de luz silenciou ante a segunda indagação, fez ligeiro aceno ao equivocado irmão de asas e desceu das vastidões do Everest para as depressões das moradias terrestres convidando, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, quem desejava servir ao Mestre, espalhando as sementes da paz, o trigo da esperança e o archote da fé.


Mulheres sofridas perceberam o apelo mudo e se fizeram servas da abnegação.


Homens tristonhos deixaram suas querelas de lado e se dispuseram ao trabalho no bem. Jovens emprestaram suas forças para percorrer longas distâncias, renovando a alegria.


Velhinhos se alistaram, voluntariamente, no mister de educadores da infância desprotegida.


Do anjo das sombras nunca mais se ouviu falar, conquanto ninguém ignore que continua agindo no mundo através das sombras de cada um, e a cada dia observa-se o aumento dos que reconhecem a própria tolice, esbatem a ignorância pelo conhecimento libertador e servem sem interesses argentários.


Quando saí do enlevo da narrativa, que me prendera a atenção, desejei perguntar ao bom velhinho até quando teremos nos cenários do mundo a luta entre o bem e o mal, a sombra e a luz, mas o idoso já tinha se levantado, tomado seu bordão e rumado na direção das estradas terrestres, desaparecendo das minhas vistas.


Deixou em minh'alma apenas a certeza de que a seara permanece vasta, e os anjos de luz continuam escassos.


E tu, a quem vens ouvindo nas trilhas do próprio destino?


Marta

Salvador, 16.02.2022

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