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Primavera de Marta - Mensagem do dia 16.05.2022



Sempre que as circunstâncias permitem e o tempo de nossas atividades nos faculta algum intervalo ligeiro, buscamos estar com os jovens, cuja estadia na matéria foi breve, deixando o corpo em plena florescência de sonhos e ideais. E foi num desses ágapes juvenis que estivemos com alguns, cada qual com sua história de vida.


O adolescente Walter nos confiaria sua trajetória até ali, resumindo que a morte o surpreendera em cima de duas rodas, quando a motocicleta fora atingida por um veículo pesado, numa movimentada BR.


Aparecida sintetizara a curta existência no corpo, ao descobrir, alarmada, que um devastador câncer se lhe instalara na corrente sanguínea, sendo inúteis os esforços da oncologia para reverter a fúria do inimigo na intimidade das células.


Pedro Eduardo nos ofertara comovido depoimento, arrematando que seu desligamento do veículo físico se dera exatamente aos dezoito anos, quando fora emboscado por uma milícia armada em pleno festejo do aniversário num bar. A tragédia o tirara do ar e da consciência plena por várias semanas, até que volveu pouco a pouco à lucidez, recebendo de uma avó muito querida o necessário suporte para a indispensável adaptação ao novo plano.


E o Augusto nos contaria que assim que completou quatorze anos teve um pressentimento de que estava com os dias contados. Nos dias seguintes uma névoa de tristeza passou a empanar seu olhar, como se vislumbrasse um comboio funerário, sendo transportado para um estranho país. Optou por nada contar aos familiares, e aquela melancolia foi num crescendo, até quando fez a derradeira viagem num ônibus de excursão com outros colegas para aprazível cachoeira, muito disputada para banhos. Ali, sentiu parte de sua tristeza se dissolver na algaravia dos colegas e amigos, mas a água do lago parecia lhe dizer no espelho movimentado que seria seu último contato com o líquido.


E após muita insistência para trocar de roupa e buscar o refresco nas águas convidativas, usou de um barranco para um mergulho, gesto esse fatal. Colidindo com uma pedra, desmaiou e de nada mais se recorda, a não ser o despertamento gradual, estando num quarto arejado e limpo, sob assistência de uma senhora simpática e distinta

Insiro aqui seu próprio relato:

- Quando tomei pé de minha realidade, a memória começou a destravar no côco e tive a nítida sensação de que já conhecia aquela senhora. Tentei balbuciar uma palavra e a voz estava enferrujada na garganta. Ela entendeu e me acariciou os cabelos, sugerindo mais repouso. Estaria velando pelo meu sono. Apaguei novamente e não posso precisar quanto tempo estive naquela inconsciência total.


Em novo despertar, me senti bem melhor e a senhora de meu lado velava. Pude perguntar onde estava e cadê minha turma. Se o ônibus estava de partida e o banho de cachoeira tinha acabado. Ela me sorriu, enigmática, e me pediu paciência para ofertar respostas, uma de cada vez.


- Sabe, eu estava cada instante mais desconfiado! Horas depois tomei coragem e perguntei o nome dela e que lugar era aquele. Eu tinha vontade de estar em casa. Ela se aproximou e pediu-me para chamá-la de vó Edileuza. E que em breve eu voltaria para casa.


Mesmo um pouco desorientado, não foi muito difícil resgatar da memória que a mãe de meu pai se chamava Edileuza, estando morta há muitos anos. Um estranho choro me subiu do coração aos olhos e me vi profundamente sozinho, desamparado, qual passarinho sem ninho.


A senhora me entende?

Acenei com a cabeça, num gesto afirmativo, e pedi a Augusto para continuar.


Ele ficou alguns minutos em silêncio, como a concatenar as idéias e prosseguiu com a voz engasgada.


- Minha avó me deu a devastadora informação dois dias depois de meu despertar, esclarecendo que minha passagem se dera três meses antes. A família terrestre estava muito abalada, mas eu poderia ajudar se mantivesse a confiança em Deus e prosseguisse acreditando na vida. Já são passados dois anos, e estou informado que em breve terei permissão para regressar ao meu ninho familiar. Minha expectativa é enorme...

E foi tudo que ele pôde dizer.


Buscou meu colo como se ali eu representasse sua mãe na Terra. Misturei suas com as minhas lágrimas e quando sua convulsão emotiva se fez pausar, o estimulei a continuar trabalhando e estudando, reunindo forças para o reencontro com a família, situada nos círculos da matéria densa.


Toquei seus cabelos de moço de dezesseis anos e pedi licença, saindo para escrever esse bilhete ligeiro, buscando acalentar tantos corações de pais e mães, para que prossigam acreditando na imortalidade da alma e na possibilidade real do reencontro.


Vossos filhos, arrebatados nas tragédias e pelas enfermidades oportunistas, prosseguem vivendo, tão saudosos quanto cada um daqueles que ficaram no corpo, reféns da saudade e das agonias provocadas pela separação abrupta.


Disse-nos Jesus: na casa de meu Pai tem muitas moradas. Vou preparar-vos lugar!


Prossigamos, otimistas e cheios de bom ânimo.


Eles vivem.


Marta

Salvador, 16.05.2022

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