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Primavera de Marta - Mensagem do dia 20.05.2022



Em pleno mês de maio, evocativo das mães, em certo e inesquecível momento, estivemos com algumas mulheres que desempenharam o papel de genitoras abnegadas quando nos círculos da carne. Naquele fraterno encontro de almas afins, cada uma tinha uma história de vida para contar, e em meio a tantos relatos ricos, não pude me furtar a anotar e transcrever aquele que me arrancou lágrimas de funda emoção.


A poetisa improvisada não nos sensibilizou tão somente pelo estro bem articulado, mas sobretudo pela ardente afetividade com que pincelou sua carta de maio.


"Meu filho, nas páginas de meu caderno de recordações, revejo você no meu ventre. Quantas emoções cultivei quando fui informada de que carregava uma outra vida dentro de mim! Os nove meses passaram como um sonho bom e pude sentir a desconhecida alegria de contemplar você, miudinho, nos meus braços.


Sua infância alegre e risonha. Seus primeiros brinquedos. Suas consecutivas festinhas de aniversário. Sua primeira cartilha, seu primeiro dentinho.


Tudo eu anotava como um sonho rosa, desejando que a vida lhe desse tudo que me faltou.


E na ampulheta do tempo, o menino virou um adolescente, buscando fora de casa formar seu grupo de amigos. Fui sendo visitada pela solidão, mas compreendi que você tinha o direito de construir sua rede de amizades. E eu fui ficando na retaguarda.


As primeiras denúncias chegaram como sopros de intriga. Desconsiderei, as achando emanações de inveja de pessoas frustradas.


Novas ocorrências envolvendo seu nome. Pequenos furtos, arruaças de rua, brigas entre gangues, estranhos cigarros entre suas coisas pessoais. Eu não conseguia ter olhos para suas imperfeições porque você era o príncipe de meu reino. Descartei tudo que me chegavam aos ouvidos como calúnias e intrigas de gente tóxica.


Ó, meu filho, mas sempre chega um instante em que a verdade dissipa a mentira, e nós, as mães que amamos demais, saímos do torpor, da ilusão, para acolher os filhos como eles realmente são e não como gostaríamos que eles fossem.


O caudaloso volume de queixas, as incursões policiais atrás de você e as inúmeras vezes em que, de madrugada, deixei a coberta vazia para buscar você, bêbado e caído em algum botequim de quinta categoria, ou em delegacias ruidosas, onde conseguia sua liberdade provisória, sempre recheada de promessas suas de mudanças.


Meu filho, teve uma noite onde me perguntei, em silêncio e entre lágrimas amargas, onde foi que falhara na sua educação? Questionei a mim mesma se deixara faltar ao seu coração o legado da honra e da dignidade. Sei hoje, nas minhas amargas recordações, que a ausência de um pai fora para você difícil lacuna, permitindo um vazio que não consegui preencher. Minha dor maior era constatar que não conseguia trazer você de volta ao equilíbrio perdido, fazendo-lhe recordar aquele menino bom, que me acompanhava sorridente para a missa na matriz.


As noites em que juntei seus dedos das mãos e ensinei a prece do anjo protetor.


Os livros que você gostava e que eu lia, com você no meu colo, antes de dormir.


Hoje, evocando aqueles dias felizes, juro que não consegui descobrir onde foi que me equivoquei em sua orientação, mas nunca esqueci que quando se confirmou ter sido você o autor dos disparos com arma de fogo, que fulminou duas vidas, senti o coração como um relógio descompensado no peito, parando de funcionar e me projetando numa inconsciência que nunca pude averiguar quanto tempo durou.


Meus últimos lampejos de lucidez foram para você. Me deixei levar pelas mãos de Deus e adormeci profundamente.


Hoje, rediviva na pátria do grande além, te revejo outra vez e minha emoção explode dentro do peito. Perdoa, meu filho, se errei por muito amar!


Releva os erros de sua mãe e regressa para Jesus enquanto é tempo.


Não posso conceber que Deus me tenha confiado uma gema e eu tenha produzido uma pedra sem valor.


Volta a orar, fio invisível pelo qual conversaremos no rumo de uma nova vida.

Ressignifica tua existência enquanto dispões do corpo, sublime ferramenta do Espírito em sua estadia na escola do mundo.


Eu sei, meu filho, que antes de ser alma de minha alma, tu és de Deus e ainda sonho, um dia, te devolver aos pés do Eterno como uma estrela rediviva.


Mais uma vez, releva minha cegueira e minha pobreza, se não pude te dar os tesouros da educação e da boa formação religiosa.


Não as tive no mundo e por isso falhei contigo, mas hoje compreendo que onde o amor de uma mãe se estende, o Divino sempre oferta novas possibilidades.


Quem sabe se num amanhã próximo não terei a ventura de ter você outra vez nos meus braços, buscando refazer caminhos e corrigir desacertos?


Agora, eu trabalho e espero.


Espero e trabalho."


Ninguém no imenso grupo fez qualquer comentário após Virgínia terminar a leitura, e se o silêncio naquela hora pesou demais, cada coração ali presente tinha sua própria carta de vida, que somente Deus pode ler.


Marta

Salvador, 20.05.2022

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