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Primavera de Marta - Mensagem do dia 20.10.2022



No transcurso de uma larga ou curta existência, muito dificilmente não acusaremos a presença da decepção em nossas vidas. A amigos e filhos, netos e colegas de trabalho teremos sempre aquele rol de pessoas que, ao longo da caminhada, nos imprimiram marcas decepcionantes.


Aquele colega de classe que nos faltou com a ajuda prometida no trabalho ou na prova difícil, causando um grave prejuízo escolar.


O político a que fomos levados a acreditar, traindo a nossa confiança de eleitor quando optou por essa ou aquela conduta ou ideologia contrária ao que adotamos.

O filho muito amado, que surge de repente com uma postura agressiva e hostil à educação ministrada na intimidade da família.


A decepção advinda do parente próximo que teceu comentários desairosos a nosso respeito junto a ouvidos tóxicos.


A decepção com aquela liderança religiosa em quem depositávamos confiança irrestrita, e de inopino, derrapou numa queda moral de efeito devastador.


A todo tempo estamos observando e nos sentindo feridos nos brios quando alguém não corresponde ao que esperávamos dele. Portadores de expectativas exageradas ou irreais, exigimos que o outro se curve aos nossos desejos e caprichos, mantendo uma conduta não compatível com seu estágio de evolução, mas sim prisioneira de nosso arbítrio pessoal. E, quando notamos que o outro fez um caminho próprio, seguiu carreira solo, nosso mundo de empáfia e arrogância desaba, gerando a intriga, a hostilidade, o corte abrupto de laços de afeto.


Mais comum do que possamos imaginar é essa ocorrência nos relacionamentos humanos, ainda muito assinalados pela infantilidade e dureza.


Se apunhalados pela decepção com alguém, imaginemos quantas pessoas estão decepcionadas conosco?


Elas também nutriam expectativas a nosso respeito e fugimos das mesmas, buscando construir a nossa estrada não como o outro imaginava, mas como nos era possível fazer e alcançar.


Os heróis estão na Marvel ou nos gibis, nos desenhos animados de antigamente ou nos filmes de ficção científica. No mundo real, temos gente de carne e osso, lutando contra as próprias imperfeições e por elas, muitas vezes, se deixam arrastar, qual folha caída na enxurrada ou tronco perdido no meio da enchente.


Se somos o que somos, eles são o que são.


Não há motivos que sustentem expectativas falsas, ilusórias, fantasiosas, acerca da conduta ou das atitudes de alguém com quem privamos laços de afeto ou intimidade profunda, porque de um momento para outro a criatura pode nos surpreender com atitudes e frases destoantes daquilo que esperávamos dela.

Nossos filhos poderão receber primorosa educação familiar, mas quando adultos e no mundo, agirão conforme as circunstâncias e de acordo com seus pendores e interesses íntimos, que é sempre terreno de difícil percepção.


Marido e mulher, mesmo após larga convivência, podem adotar comportamentos que equivalem a um tsunami emocional, fazendo um aparente lar de serenidade e harmonia de um instante para outro soçobrar, deixando em cada um mossas emocionais e psicológicas de difícil reversão.


Não seja de estranhar vozes que se levantam para proclamar que preferem a solidão, criam cães e gatos buscando fidelidade e não traição e se afastam do convívio social para não acumularem no currículo mais uma decepção.


A imaturidade gera expectativas fora da realidade. A visão distorcida da vida patrocina um oásis onde só tem deserto. A ideia de que o outro vive para nos agradar pode ter um preço muito alto.


Por instantes fugidios, nos imaginemos no lugar de Jesus. Surge a defecção de um componente do colegiado, Judas, lançando o Amigo Celeste nas mãos sanguinárias de Anás e Caifás. Antes das dores maiores, é negado por outro a quem depositava irrestrita confiança. O grupo maior, amedrontado ante a perseguição desencadeada, relega o Rabi à própria sorte.


Quanta decepção de uma só vez! Tanta gente curada, alimentada e atendida em suas aflições, e ninguém apareceu nas horas amargas para advogar Sua causa ou emprestar a mínima solidariedade.


E Ele com Deus. Na outra ponta, a multidão desvairada.


Para com todos, Ele tinha uma compreensão.


Iscariotes era fiel na amizade, apenas não entendeu a proposta do Evangelho, centrada no amor. Pedro era violento e reacionário, mas tinha um coração generoso e era uma liderança natural no grupo.


Os demais estavam sob o chicote do medo. E para a massa de povo em obsessão coletiva, Ele rogou em súplica inesquecível:

- Pai, perdoa-os! Eles não sabem o que fazem.


Se a adaga fria da decepção te visitou as fibras sensíveis da alma, reajusta a lente de teus óculos emocionais, enxerga que cada um é o que pôde ser até aqui, reflete que tem amigos que guardam de ti profundas decepções e, ajustando o campo íntimo da melhor forma possível, avança em teus passos, buscando cumprir teu roteiro na Terra.


Se atenderes tua consciência, onde repousam as leis de Deus, e não te valeres de teu livre arbítrio para machucar ou ferir intencionalmente outros corações, estás a caminho da grande luz, deixando em tua estrada marcas luminosas, a fim de que ninguém conserve de tua passagem uma decepção que tens o dever moral de evitar.


Não importa que te firam.

Importa não ferir ninguém, enxugar o suor do rosto e rumar confiante para os cimos da vida maior.


Marta

Juazeiro, 20.10.2022

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