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Primavera de Marta - Mensagem do dia 21.10.2022



À semelhança de um caudaloso rio, a existência transcorre como se fôssemos um barco singrando águas agitadas em busca de um porto no futuro.


Nossa gênese ou construção reside num estaleiro que desconhecemos. Os divinos operários, em nome do Arquiteto Universal, juntaram peças rudes, madeiras raras e confeccionaram o veículo naval, o projetando para sua fatalidade: atingir a plenitude, que aqui estamos situando como a unificação com o divino.


Lançado nas águas agitadas da correnteza evolutiva, instrumentos a bordo ainda se ressentiam do contato com as vagas dos instintos, as ondas volumosas das paixões, os ventos agitados das sensações grosseiras. Vigas estalaram, mastros foram insultados por comandos equivocados, mas mesmo assim, avançou buscando águas mais calmas.


Atravessada uma zona vastíssima de turbulência, o barco da evolução nos apontou o oceano imenso da razão, dos sentimentos, das emoções superiores. Bem e mal se fizeram mais claros e discerníveis. O comando da embarcação percebeu que uma rota mal escolhida pode prenunciar naufrágio. Rochedos pontiagudos em praias perigosas podem rasgar o casco e inviabilizar a viagem por algum tempo, obrigando ancoragem da embarcação em estaleiros da experiência e das demoradas reflexões.


A bordo, não viaja somente o comando. Comensais e passageiros diversos igualmente se agregaram em portos vários, subindo a bordo com suas estranhas bagagens.


Um trouxe inquietações nas malas.

Outro, porta caixas com conteúdo perigoso.


Aquele, veio a bordo com a roupa do corpo, qual náufrago recolhido após sinistro da própria embarcação. Se valeram de improvisada carona e se agarraram aos barcos alheios, prosseguindo viagem cada qual para exótico país estrangeiro.


Admitimos eles a bordo.

Aceitamos a intrigante companhia destes passageiros de ocasião, algumas vezes ignorando que estão tramando o soçobro da viagem em nau que não lhes pertence.

Nem sempre concordam em desembarcar em algum píer de renovação e aprimoramento. Se fizeram parasitas no comboio alheio e insistem em perturbar a viagem de terceiros.


Somente a muito custo, sacrifícios e renúncias extremas, conseguimos deportá-los de nossa casa flutuante, rumando para nosso ponto de chegada.


E as lembranças chegam, ameaçando nos fragilizar.


Os amores que ficaram nos lugares visitados. Não puderam vir conosco.

As paisagens luxuriantes que vimos no percurso e agora não passam de fotos em nosso arquivo mental.


Laços de afeto que nos deixaram em cais de pesadelos e fantasia, sem que lhes pudéssemos despertar para a importância da viagem.


As velas rasgadas pelos ventos da traição.

A insubordinação de marujos, sedentos de prazeres fáceis na ilha das sereias sem compromisso.


As cargas que tivemos que lançar ao mar, por estarem pesando em demasia nos porões da barcaça frágil.


Caixas de usura.

Pacotes de insensatez.

Litros de aguardente da ilusão.

A comida estragada da luxúria.

A água contaminada da arrogância.

Tudo ficou para trás...


Agora, parece que uma força maior nos arrasta o barco da existência para um estranho país.


Tudo se faz mais leve.

As inquietações pelo tesouro do pirata já não nos comove as fibras da aventura. E em pleno mar da serenidade, contemplamos outros navegantes que chegaram antes e depois de nós.


Estão jubilosos pela travessia realizada. Trazem cicatrizes nas mãos das cordas que içaram velas. Também choraram perdas.


Alguns tem seus barcos com o casco ferido por rochedos pontiagudos.


O Sublime Argonauta acolhe os irmãos em pedaços, exauridos na grande viagem. Pensa-lhes as feridas, renova provisões a bordo e nos sinaliza prosseguimento da viagem em direção ao Pai.


E os afetos? Chegarão também um dia.

De onde viemos? Do estaleiro de Deus.

Para onde seguimos? Para o Porto da Esperança.


Temos uma carta náutica? O amor de Deus nos indicará a rota. O pior já passou.


E refeitos, seguimos em ascensão para os cimos da vida, bendizendo lutas e tufões, granizo e tempestades violentas, que fizeram nossa embarcação mais segura e protetora.


Até a vista, marujo!


Marta

Juazeiro, 21.10.2022

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