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Primavera de Marta - Mensagem do dia 22.02.2022



Em meio à aridez do mundo, quase todos jazem sedentos de paz e harmonia. No tumulto desses dias agitados e competitivos, a exaustão física e mental a muitos ameaça, drenando-lhes o tônus vital.


Em época alguma o verbo foi tão articulado como nos dias que estamos atravessando, e a vulgaridade e a palavra chula tem retirado da gramática sua nobreza e sua altivez, rebaixando o vocabulário.


Aturdidas, as massas agem como uma manada sem rumo, acossada por feras esfaimadas e sedentas de sangue.


Proclamam-se muitas doutrinas salvacionistas, prometendo um céu sem esforço e um inferno ao menor delito, não facultando tempo hábil aos indivíduos para maturação das ideias e dos sistemas filosóficos e religiosos deste período de transição, onde os projetos surgem pela manhã, atingem seu apogeu ao meio dia e sucumbem ao crepúsculo da tarde.


Estamos em pleno tempo de impermanência e intemporalidade. Os castelos erguidos são de areia, desfeitos pela maré furiosa à primeira lambida do mar das ocorrências materiais.


Uma ansiedade coletiva paira como nuvem sombria sobre todos, não ofertando clima propício ao refazimento, à prece, aos estados de quietude e meditação. A titânica luta pelo ganha pão tem produzido uma arte empobrecida, rala, onde o vazio existencial se reflete na carência de ideais superiores, se concentrando tão somente no predomínio de uns sobre os outros.


Busca-se o triunfo e a fama com a mesma sede da mosca sobre os detritos da lata de lixo, desviando o ser de suas metas existenciais.


O ter se sobrepõe ao ser.


O possuir destaca mais do que a paz interior, que muitos já perderam.


Em meio à intensa agitação emocional, grupos se reúnem para preces coletivas, que não passam de súplicas tecidas no fio da exigência e da arrogância, onde cada um busca da Divindade a satisfação do ego e o triunfo na ribalta do mundo, olvidando a própria iluminação.


Estes são dias de contrastes, de contradições gritantes, onde o pessimismo parece ter lançado sua tarrafa no mar da insanidade, capturando centenas de incautos e invigilantes.


Em meio à desesperança e as incertezas, a mensagem de Jesus volta a brilhar com luz incomum. É na noite mais escura que o pirilampo mais se destaca.


Sim, há pessoas interessadas no bem-estar alheio, sem buscar projeção ou ganho de qualquer espécie. Milhares de almas nobres abreviam o sono e sob cansaço indescritível fazem de suas vidas pontes por onde transitam outras vidas quase perdidas.


Em meio à gritaria desenfreada, tem corações em silêncio construtivo.


Quando tantos estão erguendo clavas de ódio ou animosidade gratuita, pessoas dóceis estão exercitando a capacidade de amar sem exigências de qualquer natureza.


Se fazem lâmpadas na noite escura de muitas almas.


Espalham a esperança em gestos simples.


Secam lágrimas e abrem sorrisos. São os doutores da alegria e enfermeiros da bondade.


Passam no mundo à semelhança de exóticos, cafonas, ultrapassados, mas por onde seguem deixam flores na estrada, perfumando o chão árido das inquietações humanas.


Tomaram Jesus como paradigma, mesmo que não O conheçam totalmente.


Acreditam num mundo melhor e se fizeram arautos de um novo tempo.


Não são contra coisa alguma. Não combatem. Não esgrimam.


Simplesmente amam e servem, semeando confiança e fé em dias melhores.


Ainda não os vistes?


Seguem ao teu lado, anônimos e ignorados.


Observa e os notarás sem grande esforço.


Imagina a luta do padeiro da esquina que te materializou o pão à mesa, o homem do carrinho de frutas que passou em tua porta, vendendo para sustentar a família em penúria. Pensa no motorista ao volante do pesado veículo de transporte coletivo, que varou a madrugada para te garantir acesso ao médico ou à escola no horário certo.


Reflete sobre a menina moça que te oferta algum produto na sinaleira, tentando a duras penas sobreviver de migalhas. Ela também sonha, mas precisou olvidar a própria infância para sobreviver.


Pensa no adolescente que o tráfico aliciou porque ninguém o muniu de esclarecimentos sobre a ética e a honra.


Contempla o velhinho sentado numa varanda, silencioso e solitário como uma estátua na praça, aguardando uma palavra amiga que o arranque das garras da solidão. Quantas histórias não terá acumulado na vida longa até ali!


Não te creias imune ao vírus da desesperança ou da angústia. Não te isoles do mundo onde estás situado para aprender e evoluir.


Faz de tua existência um poema de serviço e abnegação em favor de alguma causa que dignifique a vida.


Lê uma página para o invidente.


Conduz a criança perdida.


Reabilita o vegetal caído.


Socorre o animal que a pedrada ou o atropelamento imobilizou.


Retira da via pública o detrito suscetível de causar acidente em algum desavisado.


E se ninguém te notar o gesto nobre, a ação edificante, a atuação luminosa, se o mundo estiver com as câmeras desligadas para teu papel, prossegue mesmo assim.


Ele te vê e sabe muito bem quem és.


Isso basta!


Marta

Salvador, 22.02.2022

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