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Primavera de Marta - Mensagem do dia 22.03.2022



Não se pode assegurar quem teria sido o artista que elaborou a formosa tela onde Jesus, fazendo pouso em derredor de Jerusalém, observa a cidade dos profetas em silêncio majestoso. Raras janelas sustentando uma lamparina de azeite, acendendo débil claridade na noite escura. O manto espesso da noite cobrindo a urbe milenar, onde os atritos se ocultavam por detrás de grossas paredes.


Poder e miséria em suas vielas. O santo e o profano em cada lugar, disputando mentes e corações.


O templo de Salomão, que Herodes mandara reerguer, com suas colunas jônicas majestosas, simbolizava a opulência do farisaísmo de então e, próximo da cidade, o vale do Armagedom, acolhendo a escória e os desgraçados que a morfeia assinalara com estigmas cruéis.

Palacetes de fachadas rebuscadas por artistas escravos e ninhos miseráveis em suas encostas, ocultando miséria e infortúnio.


As muitas portas de acesso, acolhendo comerciantes da Iduméia, da Síria, do Egito e da distante Grécia, além de romanos e fenícios, buscando no comércio as trocas no escambo de época.


O seu agitado mercado de frutas, vinhos e peixe defumado.


Pelas ruas empoeiradas transitavam soldados e legionários romanos, massa de povo e doutores do sinédrio local, a mais importante sinagoga de Israel.


Não, Ele não fazia um apanhado de sua febricidade ou da sua beleza arquitetônica, em contraste flagrante com suas choupanas sórdidas, onde a dor se homiziava com o crime.


Ele contemplava um mundo em transformação. Por mais que a empáfia humana erga torres que pareçam cindir o firmamento, todas as construções de natureza terrestre estão condenadas ao pó, varridas pelo vento impiedoso da história. Em 70 depois D'Ele, recebendo a incumbência de conter uma revolta na província da Judéia, o general Tito sitiaria Jerusalém com milhares de soldados, destruindo suas defesas e somente deixando de pé parte dos seus muros.


Milhares de vidas foram sacrificadas de maneira impiedosa.


Ele parecia ver essas cenas nas ondas etéreas do tempo...


Ali esteve várias vezes, e ali seria o local de Sua paixão.


Sua derradeira ceia pascal seria num sobrado, próximo de seus muros e não distante do Monte Sião.


Agora, em plena noite silente, Ele refletia sobre o triunfo da vida sobre a morte, da luz, dissipando as sombras e da paz, desidratando a guerra.


Até quando os homens se permitiriam ser escravos das paixões? Como compreender tanta filosofia e abastardamento da consciência, se fazendo vassalos da ilusão?


Dera inúmeros testemunhos da chegada do Reino de Deus ao coração agoniado das criaturas em crise nos planos do mundo, mas Seus seguidores jaziam ainda escassos e amedrontados pelo poder de César.


Quando a verdade triunfaria sobre a mendacidade?


Em silêncio profundo estava e nesse silêncio se deixou ficar, comungando com o Pai.


Hoje, Jerusalém se estende pelo planeta inteiro. As querelas religiosas prosseguem, inúteis e estéreis. A fantasia procura ocultar as torpezas morais.


Teóricos estão por toda parte, lecionando virtudes que não seguem e distribuindo receitas de felicidade pronta para as massas aturdidas, se refugiando no luxo e na opulência que agride a miséria reinante.


Ainda persiste a ostentação nauseante.


Túnicas alvinitentes, imaculadas por fora, ocultando miasmas e podridão por dentro.

Visitado pela insônia qualquer noite dessas, posta-te na janela e contempla o casario que te cerca, onde muitos espigões igualmente se erguem, ferindo o firmamento.


Medita nas dores e amarguras que muitas coberturas de luxo ocultam.


Reflete na favela próxima, onde a fome chicoteia estômagos e a cachaça embriaga homens e mulheres que enlouqueceram de dor.


Permite que a sensibilidade te abra as comportas dos olhos, deixando fluir as lágrimas de tua saudade D'Ele.


Ele não te cobra atos de heroísmo, nem te constrange a diluir a noite moral que sufoca a sociedade materialista de nossos dias.


Ele pede misericórdia, tão somente!


E se a alva te surpreender a madrugada, diluindo a escuridão medonha, toma de teu cajado e desce ao vale dos invisíveis e párias sociais, tornando-te instrumento dócil para que Ele, outra vez, reerga homens e mulheres das incertezas do mundo para as primícias do Seu reino de ventura e esperança.


Marta

Salvador, 22.03.2022

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