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Primavera de Marta - Mensagem do dia 24.02.2022



Em um bem elaborado estudo de muitos anos, a Dra. Karen Armstrong publicaria um volumoso livro, contendo as suas pesquisas sobre Deus e sua interpretação na história humana.


Procurou ilustrar com farta documentação de diversos povos que nossa íntima relação com o Eterno sempre refletiu o nível evolutivo de compreensão que se tinha nesse ou naquele período histórico.

Em épocas muito recuadas da evolução terrestre, Deus se escondia no trovão e nas faíscas destruidoras que surgiam nas grandes tempestades. Depois, passou a ser representado em florestas bravias e luxuriantes, onde árvores imponentes dele davam notícias. Em outros climas culturais, Deus se encontrava oculto em animais, se vestindo na suavidade da pomba ou na força do leão indomável.


O fluir dos milênios transportou a interpretação do Divino para o cume das montanhas, onde no Olimpo, Zeus agregava os deuses menores em derredor de sua corte de luxo e opulência, ali promovendo intermináveis discussões sobre o destino das criaturas humanas. Nasce a Mitologia e com ela admiráveis interpretações psicanalíticas da conduta do homem e da mulher, a evolar do comportamento dos deuses que se banqueteavam com a divina ambrosia.


Séculos incontáveis se dobraram na ampulheta do tempo até que a religião surgisse como expressão mais amadurecida da realidade transcendente da vida, situando Deus fora da morada dos deuses, mas ainda trazendo uma forte humanização de suas reações para com os filhos, perdidos no dédalo das experiências materiais.


Deus se faria um doador universal, e fomos reduzidos a simples pedintes, mendigos da Misericórdia Divina.


Praticando sacrifícios e holocaustos, obtinha-se favores celestes.


Jejuns e orações comoviam o Eterno Pai, que alterava as expiações dos suplicantes.


Deus passou à condição de um opulento genitor, antecipando a legítima aos filhos pródigos e perdulários, e ainda hoje se observa uma promíscua relação de criaturas interesseiras apenas nos direitos, deslembradas dos deveres que lhes cabem na pauta da vida moral.


Sutil alteração vem se operando na teologia, na filosofia dos últimos dois milênios, ensejando a compreensão de um Deus destituído de ufanias típicas das potestades terrestres, sob o incenso contínuo de filhos bajuladores e ociosos.


Ele passou a ser uma inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.


Nenhum perdão, nenhum castigo.


Corrige os filhos equivocados pelas ferramentas do tempo e do despertamento gradativo da consciência, ainda chumbada aos interesses rasteiros.


Jamais edificou um céu estanque, onde a virtude seja paralítica, ou permitiu que a concorrência edificasse um condomínio de suplícios eternos. Instalou, de fábrica, as leis inconspurcáveis na consciência de cada ser, que as vai conhecendo à medida que se liberta da ilusão dos instintos.


Não está prisioneiro de templos recamados de ouro e prata, nem é privilégio desse ou daquele guia de ovelhas desorientadas ou sob manipulação vergonhosa. Está em toda parte, desde o lírio do campo até às galáxias que voluteiam no infinito. Se faz sentir na brisa do mar, na chuva que desce mansa, nos diamantes estelares que faíscam na madrugada e no sol que se levanta cada manhã, incendiando o planeta de luz e calor.


Nunca é visto. Deus é tímido, mas se permite ser sentido na corola de uma flor ou no colibri que rasga os espaços em incontida alegria.


Não concede premiação sem mérito e nem punição sem delito. Confere a cada um o resultado de suas próprias obras.


É o grande atrator que nos arrasta para insondável destinação.


Revisa tua relação com Deus.


Analisa o que tens pedido e se Ele tem concedido ou negado pelos canais da própria vida.


Ante a balbúrdia do mundo, reserva alguns momentos de silêncio para ouvi-lo. Nesse momento, nada peças, nenhuma exigência, simplesmente deixa-te abrasar pelo amor de Deus por Seus filhos, ainda matriculados na escola das depurações indispensáveis.


Ele te falará por ocorrências a que não tens dado atenção devida. Te assistirá por negativas aos teus caprichos.


Te honrará nas quedas do caminho e te situará entre os últimos, fazendo de tuas mãos arado na terra boa e fecunda, onde semearás multiplicadas bençãos nas trilhas de teu próprio destino.


Quando tudo pareça conspirar contra teus ideais, e te julgues sozinho, Deus fará maioria contigo e acenderá inesperada luz em tua rota para a vida maior.


Marta

Salvador, 24.02.2022

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