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Primavera de Marta - Mensagem do dia 25.01.2022



Teu lar era recanto bucólico da velha aldeia. Ali crescêramos juntos, entre o murmúrio do rio e o mugido das vacas mansas.


As mulheres lavadeiras, a buscarem as pedras do riacho para lavagem das roupas, as batendo contra as imensas rochas e as estendendo ao sol sob o tapete da grama verde.


Foi naquele cenário, ao sopé da montanha altaneira, que nos vinculamos pelos santos laços da amizade pura.


O largo período da nossa infância risonha.

As brincadeiras sem fim. As vastidões do vale, as árvores majestosas e centenárias.


Tudo passara tão rápido.


A mocidade nos alcançou sem que nos déssemos conta.


Agora, busquei o alpendre de teu lar. Folhas mortas e vadias enchiam tua varanda de estranho abandono. Teu jardim ressequido nem de longe evocava o bosque farto de anos passados. O gorjeio dos pássaros silenciara no arvoredo próximo.


Era o mais melancólico dos crepúsculos.


Senti tua falta e busquei te rever.


Teus olhos estavam perdidos no vazio dos sonhos desfeitos. Tua alma vagava, solitária, pelos penhascos longínquos. Teus pensamentos crepitavam, qual madeira seca em labareda ardente. Teu coração era imenso Negueve, árido e desolado.


Sentei-me em silêncio ao teu lado.


O disco solar tombara, esmaecido, por detrás dos montes distantes, e a noite parecia noiva em festa, triunfando com seu colar de estrelas.


Ofertei minha solidariedade à tua dor. Verti, contigo, o pranto da saudade. À meia voz, descreveste teu desencanto com as surpresas do destino.


Solidão.


Incertezas.


Ansiedade.


Medo.


Senti que tinhas perdido a fé e teu desejo de viver sofrera rude golpe, desferido pelo sofrimento.


Numa capela improvisada, evoquei antigo mantra de nossa gente, numa clara tentativa de desviar o rumo de tua catilinária de amarguras.


"Ó, Senhor, tu és o sentido da vida e o pão da fartura! O verde dos campos e a fúria das águas. Te vejo na manhã que nasce tímida do leito da madrugada, e te ouço no majestoso espetáculo dos diamantes estelares que salpicam as noites estreladas! Tu, que ergueste a montanha e semeaste o alecrim do campo; que fizeste a cascata poderosa e a fonte serena; tu, grandioso rei, que sustentas o mundo e socorre a aldeia humilde; tu, que és a força da labareda e a suavidade do primeiro raio de sol, vem aplacar nossa sede de infinito!


Nos descobrimos sedentos de ti! A flauta prateada da mocidade passou à nossa frente, dedilhando sua melodia de ilusões.


Teu amor nos abrasa, teu poder nos alimenta, tua misericórdia nos ampara em nossa profunda fragilidade!


Vem, Senhor, e nos ensina outra vez a viver!"


Teus olhos ganharam novo brilho. Teu rosto se enfeitou de desconhecida esperança.


Teus braços se alongaram na escuridão da noite e teus dedos tentaram alcançar as miríades que faiscavam no zimbório distante.


Senti que alguma coisa se modificara em teu mundo íntimo. Reencontrara a criança perdida em teu país interior. Libertara tua fé dos grilhões da ignorância. Alforriara tua alegria esmagada pela amargura. Tua confiança em Deus renascera como a relva verde, que brota espontânea do chão após as monções colossais.


Dançamos juntos na noite escura e somente as corujas ouviram nossos gritos de incontida alegria.


Reencontramos, juntos, a presença de Deus em nosso coração. Viver ganhara um sentido existencial.


Nos sentamos nos degraus da varanda e renovamos os laços da amizade.


Perguntei-te, timidamente:

- Teus planos para o amanhã?

- Viver e ser feliz! O mais, não importa.


Marta

Salvador, 25.01.2022

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