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Primavera de Marta - Mensagem do dia 27.01.2022



Em milhares de anos de história, a trajetória do Espírito sobre a face do planeta é a mais fascinante epopéia a ser contada. Desde as eras mais primitivas até os séculos das luzes e da tecnologia, o salto quântico tem levado o ser aos píncaros da evolução intelectual, sem que se observe a mesma grandiosidade no campo da ética.


Deixamos a caverna e a palafita, os pântanos e as pradarias, domesticando animais e organizando a agricultura, o que alterou de maneira significativa a narrativa histórica, mas se presentemente nos empoleiramos no pombal dos arranha-céus ou nos trancafiamos nos condomínios de luxo, evidenciado fica que, se conseguimos evoluir na qualidade da moradia, nem sempre respiramos uma atmosfera de paz e segurança desejada. Em torno de nossas atribuladas vidas o medo se estampa na face de milhões, inquietos pelo pão de cada dia e pela manutenção do veículo carnal em que se manifestam na matéria densa.


As ciências conseguiram devassar o desconhecido, desde o domínio do fogo e da escrita até o surgimento da roda e seu aproveitamento na vida comum, mas milhões de anos de experiências evolutivas nos impuseram necessidades que se tornaram sicários de nossa paz, inquietando muitas vidas e erguendo muros em vez de pontes para com o semelhante. Lutamos para adquirir, nos desgastamos para multiplicar e de repente surge a tormenta ou o ladrão, nos arrebatando o suposto tesouro, deixando no ar o ressaibo da agonia e da incerteza, produzindo dor e medo. Nossas edificações religiosas conseguiram aglutinar milhões em blocos de fé, que ao longo de séculos se anatematizaram reciprocamente, inscrevendo nos anais da civilização capítulos de genocídio e páginas de intolerância. Em tempo algum os artefatos de guerra foram tão sofisticados como agora, onde um único fuzileiro equivale a uma legião romana de mil homens, entretanto, a guerra não nos solucionou as incógnitas da alma nem a religião organizada em castas sacerdotais conseguiu dissipar o véu da morte, esclarecendo o que aguarda o homem além das cinzas da campa mortuária.


Bibliotecas jazem abarrotadas de livros raros e preciosos compêndios de cultura e filosofia, ciência e educação, mas a marcha moral da civilização ainda flerta com a barbárie, na medida em que a impunidade aplaude o crime, o aborto ceifa a vida por se fazer, a pena de morte elimina o equivocado que o Estado se recusa a recuperar e o suicídio arrebata todos os dias centenas de indivíduos, desanimados para as lutas e desamparados nas suas angústias.


Mesmo tocando as estrelas com artefatos de bilhões de dólares, parecemos ignorar que jornadeiam em nossas ruas e vielas milhares de pais de família, crianças esfarrapadas e adolescentes sonhadores em dolorosa escassez de tudo, lançados à sarjeta da miséria mais abjeta, em marcha para doloroso porvir.


Que opção adotar como política pública: mais escolas ou mais penitenciárias?


Livros ou algemas?


Telas azuis estão por toda parte, facultando que internautas ávidos troquem milhares de informações por segundo, mas a boa conversa face a face vai sendo esquecida, patrocinando uma geração robotizada e neurótica, conectada com o externo e passageiro e perdida em si mesma.


Urgente se faz uma reflexão de nossos valores até aqui e como revitalizar aquilo que parece ter se perdido na curva do rio.


Resgate da amizade, para que a atual geração não repita a frase do personagem Bebeto na obra "Pai, me compra um amigo?", de Pedro Bloch, retratando a imensa solidão do menino, "órfão" de pais vivos.


Cultivo da religiosidade como a imaginava Teilhard de Chardin.


Estabelecimento de pontes de fraternidade e solidariedade para com alguma causa que dignifique a pessoa humana.


Diminuição da agressividade gratuita.


Cultivo da paz no trato com as contrariedades do cotidiano.


Enfrentamento do medo da morte, equacionando à luz da fé lúcida e raciocinada os enigmas do ser, do destino e da dor.


Despertamento do Deus que dormita no leito do coração, aguardando nosso chamado para se manifestar no mundo.


Cultivo do silêncio em meio à gritaria, articulação da prece quando o momento da revolta e a perene gratidão pelo dom da vida, mesmo que esta não reflita os caprichos e paixões que estejam na moda.


Buscar ser autêntico e verdadeiro numa sociedade ainda marcada por fingimentos e hipocrisia contumaz.


Calar-se quando perder o equilíbrio, falar quando seu verbo seja bússola e guiar-se pela razão e bom senso, evitando aconselhamento com a precipitação e com o egoísmo feroz.


Não esperes que o mundo te aplauda.


Muito provavelmente muitas mãos que hoje te cumprimentam serão as mesmas que amanhã, contrariadas ou não, vão te apunhalar pelas costas. Lábios que hoje te elogiam, horas depois te vomitarão pragas e maldição.


O olhar de ternura de agora pode te fulminar minutos depois.


Mesmo assim, persevera no bem. Dá ao mundo teu melhor. Sustenta, como puderes, a chama frágil da esperança e da alegria.


E não esperes do mundo aquilo que o mundo já te assegurou não ter para dar.


Se tua consciência não te reprovar cada noite e em teu coração a mágoa e a tristeza não fizerem ninho, terás iniludíveis sinais de que estás no caminho certo, mesmo que o resto caminhe em sentido contrário.


Se estiveres errado e todo mundo certo, acabarás por pensar e agir como todo mundo, mas se estiveres certo e todo mundo errado, cedo ou tarde eles reconhecerão que estavas correto e o restante, equivocado.


Quem tem Jesus nunca se perde.


Marta

Salvador, 27.01.2022

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