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Primavera de Marta - Mensagem do dia 27.09.2022



O indivíduo que decide pela própria iluminação enfrenta desafios que dificilmente será compreendido pelos demais. Por destoar quase sempre da coletividade ainda submersa nas sombras do apego e das paixões, o candidato aos cimos da vida sofre a incompreensão e a agressividade de muitos.


Dolorosa solidão assinalam suas noites. Não mais adepto das orgias e bacanais próprio dos gozadores e viciosos contumazes, ruma em plena madrugada sob a chuva fria do abandono, fitando outras metas que aqueles ainda não compreendem.


Em círculos de fariseus palavrosos e agiotas da usura, escolhe a renúncia ao transitório e passageiro, buscando superar as próprias limitações.


Em sendo acolhido em algum casebre ou palacete, se ajusta ao convívio da simplicidade, declinando das pratarias faiscantes e dos candelabros dourados. Se possuir um único toco de vela, diluirá a escuridão da noite medonha, e se esta possibilidade não lhe chegar às mãos, se valerá do lume das estrelas para contemplar o zimbório em festa.


O silêncio será seu companheiro inseparável.


Repousará muito pouco, porque em cada trecho da estrada será defrontado por caídos e tombados, acidentados e feridos, clamando por ajuda.


Nem sempre disporá dos insumos indispensáveis aos curativos e tisanas com que fechará feridas abertas ou cicatrizará úlceras em carne viva. O improviso será seu socorro de cada momento, fazendo da ação um veículo mais poderoso que a palavra pura e simples.


Abordando gente equivocada, que respalda com argumentação falaciosa os próprios desatinos, saberá respeitar esse ou aquele em rota de colisão com a verdade e a ética, concluindo que compreender não é aceitar e entender não significa anuência ou aprovação.


Raramente fica num lugar muito tempo. Quando começa a criar raízes ou laços afetivos, uma força maior obriga o servidor fiel ao deslocamento para a charneca da miséria moral e para os pântanos da promiscuidade aviltante. Não fica onde quer. Ruma para onde deve.


Onde chega, absorve um pouco dos que encontra. Quando parte, deixa um pouco de si nos corações sinceros.


Sua bagagem é a mais leve possível, quase nada. Por muito confiar no Senhor, sabe que suas necessidades serão atendidas em momento próprio, nada temendo em relação ao dia de amanhã.


Vive intensamente o hoje, nele imprimindo marcas indeléveis para os desorientados da estrada.


Raramente dorme no mesmo dia que acorda. Tem seus ciclos regidos pelo oceano das necessidades humanas, e não busca ser herói em lugar algum.


Serve e passa.

Compreende e acata cada ser como cada um é, sem exigir da formiga a força do elefante e sem cobrar do crocodilo a cordura da ovelha mansa.


Percebe clara e nitidamente estar no mundo como um estrangeiro, apartado da terra querida em exílio difícil, e conquanto mantenha a esperança de aos verdes campos voltar, caminha decidido pelas terras áridas da natureza alheia, sem ferir ou criticar.


Não perde tempo com adereços de verborragia barata. Não consome fosfato para ganhar uma discussão vazia. Não disputa nem marca território como se fosse seu.


O que tem, doa.

O que sabe, oculta dos sábios e doutores.

Leciona aos simples e despossuídos o que eles podem entender.


Não proclama méritos para se fazer temido ou admirado. Tudo que consegue atribui ao Senhor, lhe prestando incessante tributo em serviço e ações que promovam a dignidade da pessoa humana.


Não, não relacionamos tudo que o servo fiel e digno experimenta no mundo. Ele vive muito mais experiências difíceis que se possa imaginar.


Se tencionas adotar semelhante conduta, paga o tributo da renúncia, sacode o pó das sandálias e toma a estrada.


Converte lágrimas em suor abençoado, desce à seara vasta e aí realiza a vontade do Senhor, olvidando caprichos e desejos.


O operário é digno de seu salário e a oficina permanece rica de serviço, escassa de tarefeiros.


E o semeador saiu a semear...


Marta

Salvador, 27.09.2022

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