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Primavera de Marta - Mensagem do dia 30.08.2022



Não é de hoje que o homem se deixou fascinar pela miríade de astros que voluteiam no infinito. Civilizações do passado remoto, algumas completamente extintas, dedicaram formosas páginas de sua história na verificação e catalogação de estrelas que tremeluziam no espaço profundo.


Navegantes do pretérito, como fenícios e gauleses, portugueses e ingleses, se valiam do posicionamento de planetas e constelações para ofertar uma mínima segurança às grandes navegações e travessias marítimas por mares nunca antes perlustrados.


A Ursa Maior, Sirius, Vênus no seu apogeu e as três Marias luziram nas noites escuras, ofertando base empírica para mapas náuticos desafiadores em épocas remotas da história humana.


E do Sputnik ao James Webb, do projeto Apolo ao Opportunity, das lentes modestas de Galileu ao Hubble temos um avanço assombroso no campo da investigação que devassa a nossa última fronteira.


A ânsia atual é a descoberta de qualquer forma de vida extraterrestre que consolide a certeza de que não estamos sozinhos. Varreduras de paralaxe, espectroscopias de galáxias, captura de ondas de rádio de constelações distantes, complexos estudos de exoplanetas e gigantes gasosos podem nos ofertar impressionantes descobertas sobre os primórdios do universo.


A curiosidade humana nunca teve limites e foi graças a ela, bem movimentada em diversas áreas do conhecimento, que conseguimos devassar o átomo e seus segredos, penetrar camadas profundas da crosta terrestre e descer aos abismos oceânicos, decifrando a vida em lugares inóspitos. Entretanto, a um observador mais atento não fugirá a constatação de que alguém está ficando fora do filme da história: o próprio homem.


Enquanto o cérebro devassa os segredos das nebulosas distantes, o olhar atilado se recusa a enxergar a miséria material que devora milhões, a fome que abate diariamente centenas de crianças e jovens, e o saneamento e a saúde, na forma de atendimento médico, que não chegam de forma igualitária para todos.


Em cinco décadas de notáveis viagens espaciais, ônibus reutilizáveis por astronautas e a conquista da lua, trilhões de dólares foram despejados na corrida espacial por nações possuidoras de tecnologia avançada, buscando pioneirismo e primazia nas descobertas, mas no solo do planeta muitos povos se arrastam em miséria chocante, habitando tugúrios infectos e, sob a escassez assombrosa do pão, se fazem canibais uns dos outros, tomando pela força e pela guerra aquilo que não podem comprar.


O contraste entre o cérebro e o coração, o neurônio e a flor é gritante, acachapante. E mesmo quando a mobilização mundial se moveu através de vozes humanitárias, religiosos de destaque e pensadores de escol, a sociedade acadêmica e governos vários se entrincheiraram na indiferença, aprofundando mais ainda o abismo entre a ciência que investiga e o estômago que estorcega na canícula desesperadora.


Como conciliar os voos do condor intelectual, pairando acima da cordilheira dos andes e o suave colibri, beijando flores no jardim, em busca do néctar da sobrevivência?


De que forma estabelecer pontes confiáveis e seguras entre o laboratório e a escola, a estação espacial super sofisticada e o mercado popular?


Fundamental humanizar a ciência, a tornando ferramenta produtora de progresso também emocional. Diminuir as distâncias entre os seres, fazendo do coração e dos sentimentos estrada por onde trafeguem valores que promovam a dignidade da pessoa humana.


Que o cálculo não se torne áspero nem insensível. Que a máquina não esmague a esperança nem desfigure o otimismo, desalentando mais ainda as massas aturdidas com tantos conflitos não solucionados.


Em pleno início do século XXI, os desafios se apresentam maiúsculos, as tragédias naturais e provocadas pela ação terrorista são chocantes e as incógnitas permanecem exigindo respostas.


Cérebros avantajados, corações atrofiados.

Tecnologia de última geração para alguns, fogão a lenha para milhões.

Mesas fartas e desperdício alimentar em muitos lugares e pavorosa desnutrição em diversos países.


O luxo convivendo com o lixo.

Riso de alguns.


Esgares de amargura de outros.

O velório ao lado da festa ruidosa. O parque de diversões ao lado do aterro sanitário.


Sim, o espaço sideral é uma fronteira desafiadora, e a ficção científica dos anos 60 hoje é realidade ao alcance da mão. Por toda parte temos novos doutores Spock's e a cada dia sofisticadas aeronaves cruzam os céus, provocando admiração e ufania. Mas enquanto o prato estiver vazio, o hospital sobrecarregado, a escola sem vagas e a penitenciária lotada, seremos tão somente uma sociedade culta, ainda não civilizada.


Nossas misérias morais serão maiores do que as estações espaciais.

Possuiremos obras de arte valiosas e caras, elevaremos ao pedestal da fama celebridades e figurões da política e do cinema, mas ao sair dos grandes salões de festas ruidosas e regadas a champanhe de alto valor, rentearemos com a mendicância na calçada, o grito calado da mulher explorada nas vielas escuras e com a fome que martiriza crianças e velhinhos sem família.


Que nos perdoe Ptolomeu, Demócrito, Sócrates, Platão, Aristóteles, Decartes, Einstein e George Gamov, mas se a sociedade abrir mão da parceria com Jesus Cristo apenas exibiremos nossa falência ética e nosso soçobro existencial.


Respeitamos profundamente a mente audaciosa em decifrar o segredo dos ninhos estelares e constatar se temos vizinhos na galáxia onde residimos, mas se a solidariedade for aviltada, o amor menosprezado e a gentileza ignorada, poderemos até conquistar os astros no infinito, mas nos perderemos de nós mesmos.


Nossa marcha pode e deve ser com Jesus, por Jesus e para Jesus!


Marta

Salvador, 30.08.2022

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