Qual a visão do Espiritismo sobre o Aborto?



Podemos conceituar o aborto como aquele que nasceu antes do tempo próprio, um parto prematuro, a expulsão do feto antes dos nove meses de gestação e quando o feto não apresenta viabilidade de vida extrauterina independente. A melhor definição seria, então, a eliminação de um ser humano no período de vida compreendido entre a fecundação e o nascimento.

O aborto pode ser natural ou artificial, quando ocorre de forma espontânea e involuntária, ou provocado voluntariamente. Dependendo da legislação de cada país, pode ser, ou não, considerado crime e, como tal, penalizado pela lei civil. No âmbito da Doutrina Espírita, procura-se esclarecer ser o aborto um crime, podendo ter atenuantes ou agravantes, como todo desrespeito à lei, sendo o abortamento provocado um crime perante a Lei Divina ou Natural, pois que se impede uma alma de passar pelas provas a que serviria de instrumento o corpo que se estava formando, ficando os infratores sujeitos à infalível lei de causa e efeito.

O direito à vida o primeiro de todos os direitos do homem, razão pela qual ninguém pode atentar contra a vida de seu próximo, nem fazer algo que possa comprometer a sua existência no corpo físico. Lembremos iniciar-se a união da alma com o corpo no momento da concepção, completando-se por ocasião do nascimento. Portanto, desde o instante da concepção, já há um Espírito designado para habitar aquele corpo, ligando-se por um laço fluídico, que fica sempre mais apertado, até o instante do nascimento. Para a Doutrina Espírita, em situações onde o nascimento da criança colocasse em risco a vida da mãe dela, é preferível sacrificar o ser que ainda não existe a sacrificar-se o que já existe. Com o avanço da Medicina, entretanto, verifica-se ser cada vez mais escassa a indicação desse tipo de abortamento. Sem dúvida, nestas situações, com as angústias provocadas, apresentam-se como momentos de prova e de resgate para pais e filhos, experimentando na dor educativa a reparação e o aprendizado necessários.



Em situações de aborto por motivo de estupro, o Espiritismo não é favorável, sendo oportunas as seguintes indagações: Foi a criança que cometeu o crime? Por que imputar-lhe responsabilidade por um delito no qual não tomou parte? Ainda quando a gravidez resulta de uma violência, a posição espírita é terminantemente contrária ao aborto, mesmo quando possível pela legislação humana. Vale lembrando o que já foi exposto acima: em situações onde o nascimento da criança colocasse em risco a vida da mãe dela, é preferível sacrificar o ser que ainda não existe a sacrificar-se o que já existe.


Entende-se que, em não havendo na mulher estrutura psicológica para criar o filho, cabe então à sociedade e aos órgãos governamentais adotar as medidas legais cabíveis para facilitar e estimular a adoção da criança, nunca promover sua morte legal. O direito à vida precisa sobrepor-se ao ilusório conforto psicológico da mulher.

Tratando-se de gestações de seres com deficiências ou limitações mentais e/ou físicas, também não se recomenda os chamados abortos “eugênico” ou “piedoso”. A espiritualidade informa haver um objetivo da providência divina, estando os Espíritos que habitam corpos de idiotas sujeitos a uma punição, sofrendo por efeito do constrangimento que experimentam e da impossibilidade de se manifestarem por meio de órgãos não desenvolvidos ou desengonçados. Sabemos não permitir Deus sofrimento sem utilidade, sem crescimento para a criatura, fazendo-nos compreender serem as limitações do corpo físico necessárias ao aprendizado do Espírito.


Deste modo, mesmo sendo o feto portador de lesões graves e irreversíveis, físicas ou mentais, esse corpo é o instrumento apto para a sua evolução, pois apenas com a reencarnação terá condições de reorganizar sua estrutura desequilibrada por ações realizadas em desconformidade com as leis divinas. Além disso, cabe destacar renascer o Espírito em um lar cujos pais, quase sempre, encontram-se comprometidos com o problema, necessitando igualmente passar por essa experiência, mesmo que dolorosa.



Os chamados abortos econômicos, decorrentes do acréscimo excessivo da população, também não encontram guarida na Doutrina Espírita. Os amigos espirituais esclarecem não precisar o homem com isso se preocupar, pois Deus tudo provê, mantendo sempre o equilíbrio e nada fazendo de inútil. O homem, lamentavelmente, observa apenas um quadro da Natureza, sendo incapaz de julgar adequadamente a harmonia do conjunto. Diz "O Evangelho Segundo o Espiritismo":


A Terra produzirá o suficiente para alimentar a todos os seus habitantes, quando os homens souberem administrar, segundo as leis de justiça, de caridade e de amor ao próximo, os bens que ela dá. Quando a fraternidade reinar entre os povos, como entre as províncias de um mesmo império, o momentâneo supérfluo de um suprirá a momentânea insuficiência do outro; e cada um terá o necessário.

Assim, precisamos ter em mente ser o filho uma benção divina, a qual temos que valorizar e amar. Mesmo podendo a gravidez trazer desafios e dificuldades, cabe-nos não agir de modo a acrescer novos débitos em nossa caminhada evolutiva. No livro "O que dizem os Espíritos sobre o aborto", encontramos considerações importantes sobre o tema, in verbis:


[...] a mulher não é dona da vida que foi gerada em seu ventre. [...] Buscando exterminar a vida que se forma dentro de seu ventre a mulher estará não só negando o direito à vida de um outro ser, impedindo-o de mais uma oportunidade de evolução, como também contribuindo para lesar o próprio corpo, e sobre o qual tem plena responsabilidade.


Como o aborto causa, de forma violenta, a desencarnação do Espírito, traz para esse muito sofrimento, levando não raro, inúmeros anos para a recuperação do trauma, quando não se tornam obsessores, voltando-se contra a mãe e todos aqueles que se envolveram na interrupção da gravidez. É muito melhor convivermos com filhos difíceis do que com grandes inimigos, principalmente quando desencarnados. Desta feita, o aborto não é uma solução, mas na verdade um adiamento doloroso, uma porta para o crime, através do qual rompemos os compromissos firmados, no planejamento reencarnatório, com aquele Espírito reencarnante e conosco mesmo.

O Espírito André Luiz elucida verificar-se, muito raramente, o abordo como consequência de causas operadas no plano espiritual, decorrendo, em sua grande maioria, do recuo repentino dos genitores encarnados, “diante das sagradas obrigações assumidas ou aos excessos de leviandade e inconsciência criminosa das mães”, sem apresentarem a devida responsabilidade acerca deste ministério divino. Informa o autor espiritual que, mesmo nestas situações, tudo fazem para evitar a fuga da maternidade, conquanto a interferência tenha seus limites, posto precisar ser o livre-arbítrio respeitado, quando então deixam os envolvidos entregues à própria sorte.


Diante do aborto, algumas consequências podem vir em futuras encarnações. Quantos casais querem ter filhos, mas a esposa não consegue engravidar? Podem existir graves desajustes perispirituais a se refletirem no corpo físico, na forma de câncer, esterilidade, enfermidades do útero, infecções renitentes, frigidez, metrite, vaginismo, metralgia, o enfarte uterino etc. Na verdade o centro genésico acaba sofrendo desequilíbrios profundos, ainda sem conhecimento pela ciência humana. A mãe, no plano espiritual, sente-se infeliz e adoentada, pois o remorso a consome profundamente, num ato de recapitulação mental incessante do ato abominável, fazendo com que mantenha, por muito tempo, a degenerescência das forças genitais. Fernando Moreira, em artigo publicado na Revista Reformador, assevera:

Quem quer que venha praticar esse delito ou com ele colaborar predispõe-se a alterações significativas do centro genésico, em seu perispírito, com consequências [sic] atuais e posteriores, na esfera patológica de seus órgãos sexuais e também, por vezes, dos centros de força (chacras) coronário, cardíaco e esplênico com todas as repercussões pertinentes. Nós estamos preparando hoje a reencarnação de amanhã; um aborto provocado agora se refletirá no chacra genésico, e será mais além o aborto espontâneo, pois a paternidade e a maternidade não valorizados hoje, o serão com certeza amanhã, noutra encarnação, mas agora por um processo educativo, que passa pela dor e pelo sofrimento redentor. Em igual patamar, como conseqüência, estão a prenhez tubária, a placenta prévia, o descolamento prematuro de placenta, a esterilidade, a impotência, entre outras causas que atingem a esfera do aparelho reprodutor masculino e feminino.



Observa-se, assim, responder pelo crime não apenas a mãe, mas todos aqueles que, de alguma forma, contribuíram para o acontecido, incluindo-se maridos ou namorados que submetem as mulheres, médicos que estimulam e o executam, enfermeiras e parteiras sem consciência, sofrendo todos os envolvidos tristes consequências, conforme o grau de culpa de cada um, “atraindo sobre as próprias cabeças os sofrimentos e os desesperos das próprias vítimas, relegadas por eles aos percalços e sombras da vida espiritual de esferas inferiores.” A mulher que cometeu aborto, em futuras reencarnações, receberá como filhos almas que viciaram a forma do corpo físico e espiritual, sendo mãe de antigos criminosos e suicidas, tendo ambos, mãe e filhos, oportunidade de regenerar as energias sutis do perispírito, por meio do sacrifício que significará referida maternidade, devotando-se aos filhos torturados e infelizes, aprendendo na oração a bem servir, com nobreza da alma, reconquistando, pelo sofrimento e trabalhos justos, a maternidade pura e saudável.


#aborto #visaoespirita #espiritismo #perguntasErespostas


2020 © Todos direitos reservados Conhecendo o Espiritismo